É doutorado em Teologia Fundamental (Phil.-Theologische Hochschule Sankt Georgen, Frankfurt, Alemanha), com uma tese sobre uma recepção teológica da filosofia da arte de Gadamer. É Professor Associado com Agregação da Faculdade de Teologia da UCP (Braga, Porto e Lisboa), e docente convidado na Faculdade de Filosofia (Braga), na Escola das Artes (Porto) da Universidade Católica Portuguesa, e no Instituto Teológico Compostelano, agregado da
Entre os muitos aspetos da reforma litúrgica originada pela Constituição Sacrosanctum Concilium, o primeiro texto do Concílio do Vaticano II, gostaria de me concentrar num em particular, por considera-lo central. Para isso, proponho como ponto de partida dois versos de Sophia de Mello Breyner Andresen: “Apenas sei que caminho / Como quem é olhado, amado e conhecido / E por isso em cada gesto ponho / Solenidade e risco”.
A celebração litúrgica, sobretudo pela sua dimensão ritual, significa necessariamente a concentração celebrativa de uma identidade, com significado fundamental para cada pessoa e para a comunidade de pessoas que nela participam. Nesse sentido, possui um grau próprio de “sacralidade”, ou seja, de representatividade de algo que é supremamente significativo e por isso importante para quem com isso se identifica. O crente cristão, que na sua fé encontra o sentido da sua existência, celebra assim a dimensão “sagrada”, ou seja, fundamental, insubstituível, desse mesmo sentido. Por isso, esse sentido e essa celebração são o que, para ele, existe de mais “solene”, se entendermos aqui por solene algo que verdadeiramente toca o âmago da seriedade da nossa existência, no qual se joga a própria existência, no seu risco de possuir ou não sentido.
Ora, sabemos que um dos aspetos da transformação litúrgica após o Concílio foi precisamente a superação e o abandono de certo modo de solenidade anterior, herdeira da solenidade barroca da forma ou mesmo da solenidade romântica da devoção e do sentimento. E uma das manifestações mais fortes dessa transformação foi a passagem da língua da celebração do latim para a língua dita vulgar ou vernácula. A par disso, colocou-se no centro o dinamismo da participação ativa de todos os membros da assembleia cristã. Isso corresponde, sem dúvida, ao espírito mais tradicional da liturgia e também ao espírito mais moderno das sociedades democráticas.
Acontece, contudo, que essa transformação foi acompanhada, em muitos casos, pela completa banalização da própria celebração, que assim perdeu a sua solenidade, ou seja, o seu estatuto de manifestação,por gestos e pela palavra, de algo central na nossa existência. É claro que a solenidade barroca ou a romântica já não eram adequadas aos novos tempos. Mas não tem sido fácil encontrar novas formas de autêntica solenidade. Contudo, os nossos contemporâneos, também os cristãos, precisam de celebrações em que a solenidade daquilo que verdadeiramente interessa na existência ganhe corpo, sem banalidade, em gestos, palavras, espaços e tempos próprios. Penso ser esse o grande desafio do povo cristão, quanto à liturgia. E todos devem estar envolvidos, a começar pelos pastores e pelos especialistas.
