Recomeço e esperança

Professor João César das Neves
 
É doutorado em Economia e autor de vários livros e artigos científicos nessa área. É professor na Universidade Católica Portuguesa e presidente do Conselho Científico da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da mesma universidade.

O ano ainda vai a pouco mais de meio e já estamos a recomeçar. O ano letivo, que terminou a meio do ano civil, reinicia agora e, em seguida, recomeçaremos vários ciclos até ao fim do ano, onde principiará um ano novo.

Este ritmo de fim e recomeço é natural e sentimo-lo continuamente. A natureza morre cada Outono para renascer na Primavera, como nós todos os dias recomeçamos após o sono. A existência parece ser um ciclo imparável de recomeços que se sucedem a declínios. Como diz Quoelet, «Uma geração passa, outra vem; e a terra permanece sempre. O Sol nasce e o Sol põe-se e visa o ponto donde volta a despontar. O vento vai em direção ao sul, depois ruma ao norte; e gira, torna a girar e passa, e recomeça as suas idas e vindas» (Ecl 1, 4-6).

Esta verdade imponente é mascarada pelos nossos mitos de progresso e desenvolvimento, que permanentemente garantem que o mundo mudou. Mas cada revolução é apenas um recomeço de algo que há de acabar. Como o ano letivo.

Esperamos sempre que tudo acabe para depois recomeçar. Este é o fatalismo budista ou cínico que tantas vezes espreita por detrás dos nossos sonhos e ilusões. O otimismo do começo é sempre belo, como a Primavera. Mas esquece que se segue a uma queda semelhante à que esta novidade experimentará no futuro, até àquele fim que termina tudo. A mudança é sempre cíclica, até acabar.

Neste grande circuito natural aconteceu apenas um facto que mudou tudo. Um só acontecimento transformou a ondulação repetitiva numa dinâmica linear com um destino superior: o Verbo fez-se carne e habitou entre nós. Também Ele, que não tinha início, começou, para no fim morrer. Só que Ele regressou do fim, num recomeço que não tem ocaso. Cristo, cumprindo as profecias, dividiu a história em duas e rompeu para sempre o ciclo permanente de fim e recomeço. A vida que Jesus trouxe é eterna, não tem mudança, não acaba nem renova.

Nós, por enquanto, continuamos a viver no ciclo natural de fim e recomeço. Cristo não mudou isso. Mas trouxe algo que ultrapassa esse ritmo e faz já presente aquilo que vence a ondulação. Com Jesus, pela primeira vez nesta história recorrente, temos Esperança. Esperança que não é otimismo ou mito de progresso, mas sim a presença d’Ele e a certeza de sermos salvos pelo sangue do Senhor. Esta esperança que, afinal, é o único valor que trazemos no início deste ano letivo.

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