Franciscano capuchinho, nasceu em 1959. Teólogo e biblista, foi professor de Ciências Religiosas no ISCRA em Aveiro. É intérprete na Comissão Teológica Internacional da Santa Sé. Colabora, como tradutor, com diversos organismos internacionais, como a Ordem dos Capuchinhos, a OFS e a Federação Bíblica Mundial. Pertence ao quadro de redatores da revista Bíblica, onde assina artigos de aprofundamento teológico. É assíduo comentador de atualidade social e religiosa na SIC Notícias. A TSF escolheu-o como "figura do ano" em 2010.
Falar de misericórdia, é falar de uma das categorias essenciais dos atributos de Deus no Antigo Testamento, que em Jesus Cristo se vai transformar na chave de leitura das relações de Deus connosco, e em desafio para a chave de leitura das nossas relações com os outros, como sinal distintivo e condição sine qua non para a nossa relação com Deus. Ninguém pode pretender ter uma relação com Deus se não tiver uma relação com os outros. Uma relação de coração, uma relação de intimidade, de empatia, de SER. De ser com e para. E aqui está o desafio, mas também a condição do próprio existir. Tudo o resto não passa de folclore…
Com efeito, no A.T., o conceito de Deus como misericórdia e verdade, perpassa todo o texto, numa atitude “desafiadora” que “empurra” o leitor a ir mais longe na sua compreensão de si próprio e de Deus.
Trata-se de um empurrão no sentido de entender o sentido profundo da própria revelação, ou seja, o do matrimónio de Deus com toda a humanidade, com toda a criação.
Com efeito, atrever-se a fazer o esforço de entender Deus que “tem coração”, que tem “entranhas”, que é relação de intimidade, logo, que é capaz de se “comover”, que é capaz de empatia, é tocar a essencialidade essencial de ter, ser e viver uma relação de intimidade e de TU, quando e onde o TU se transforma na categoria reveladora do EU, que fatalmente terá de me levar a construir uma relação de NÓS, em primeiro lugar com os outros e depois, só depois, com Deus.
Um dos atributos fundamentais de Deus, que o Antigo Testamento apresenta está representado pela palavra hebraica hesed, - misericórdia, coração misericordioso… podem ser expressões semelhantes, mas não chegam para transmitir toda a grandiosidade que o conceito original encerra.
Ao partir de duas afirmações centrais do Antigo Testamento acerca dos “atributos” de Deus, misericórdia e verdade (hesed e ‘emet), a Escritura coloca nesta frase toda a carga de identificação e de caracterização dos anawim, ou seja, dos pobres em espírito, ou seja, daqueles que são precisamente gente que vive este mesmo sentimento de Deus, esses que reconhecem que tudo o que têm receberam de Deus e que, por isso, se abrem sem condições aos outros.
Um Deus de hesed, um Deus de misericórdia, em última análise, e indo à etimologia dos termos usados, é um Deus com “tripas”, – diríamos nós de uma forma mais poética, com coração –, que desafia o anaw, que desafia cada um de nós, para esta mesma atitude diante de vida.
Longe de ser simplesmente uma elucubração tão ao gosto das liberdades poéticas, o convite que fica, neste elemento de bem-aventurança, de felicidade, é justamente este de ter um coração capaz de bater ao ritmo do coração de Deus. Um coração apaixonado, um coração não solitário; casado com a vida e com o mundo, da mesma forma que Deus casou com a criação inteira, sem exceções… Deus casou com todos… até com os católicos…