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Ano da Misericórdia em perspetiva…

Pe. Morais

António José Oliveira Morais é o atual arcipreste de Gouveia e pároco de Gouveia, Folgosinho, Freixo da Serra, Melo e Nabais.
Nasceu em Cativelos, Gouveia, a 12 de fevereiro de 1941 e foi ordenado padre a 1 de agosto de 1965. Faz parte da Comissão Diocesana de Música sacra.
Foi o Assistente Diocesano do Movimento Vida Ascendente.


O Papa Francisco proclamou no dia oito de dezembro próximo, o Ano da Misericórdia. Cuido que é suficientemente sabido.  Todavia esta proclamação deixa algumas interrogações: " Não são, porventura, todos os anos, anos da misericórdia? E não são todos os dias, dias da misericórdia? E se o são, porque proclama o Papa, com toda a solenidade, um Ano da Misericórdia? Será que os anunciadores do Evangelho, anunciam mesmo a Misericórdia? E os crentes, que batalham para que lhes seja anunciado um Deus vingativo, castigador, que apenas vigia o mal que os humanos praticam e não olha o que de bem eles fazem? A verdade é que o nosso pobre mundo, obra maravilhosa do nosso Deus, continua a ter uma carência de misericórdia e a proclamação do Papa, visa despertar para o Deus que é Amor, Misericórdia, Justiça, Paz. Disse Misericórdia e Justiça e talvez não devesse, porque a justiça de Deus tem um nome:" Misericórdia.”

Nesta investida de crueldade, radicalismo, desrespeito pela vida e as suas circunstâncias, urge reavivar a presença e a necessidade da Misericórdia nas nossas vidas. Falo de presença ativa, dado o facto da tentação de olhar a misericórdia, apenas pelo dado do perdão no sacramento da reconciliação e esquecer outras vertentes, das quais depende a reconciliação com o Pai, com os outros, com a natureza e consigo mesmo.

Repare-se no quanto o Evangelho nos anuncia como Misericórdia e que deve identificar a vida do crente e dos anunciadores da Misericórdia. Passam pela vida do Mestre, pecadores de todos os jeitos, ladrões, adúlteros, impuros, maldizentes e outros, cujo pecado se desconhece. Jesus tem para todos a mesma palavra: "Vai em paz, os teus pecados estão perdoados...não voltes a pecar"...porque muito amou, muito lhe foi perdoado"..."Se conhecesses o dom de Deus...(Jo 4,1 ss; Mc 2,1 ss).

Claro que estes, para obterem o perdão de Jesus, tiveram que se deixar ver por dentro...e Jesus viu: a fé e o arrependimento. Não houve intromissão na consciência do outro, não houve sermão reprovador do que fizeram, mas apenas a palavra da misericórdia. Noutras circunstâncias, foram apenas os gestos, sem exigir explicações: "Abraçou-o e disse aos servos. "Vesti-lhe uma túnica nova, ponde-lhe uma sandálias nos pés e um anel no dedo e façamos uma festa, porque este meu filho estava perdido e encontrou-se"...(Lc 15,1 ss) "Zaqueu desce depressa, porque Eu, hoje, vou ficar em tua casa"...Ó Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e se defraudei alguém, vou dar quatro vezes mais"..."Hoje, a salvação entrou nesta casa"(Lc 19, 1 ss) E para escândalo dos judeus, comia com publicanos e pecadores. (Mc 3,15 ss)

Mas não ficou por aqui. Também as misérias físicas couberam, no seu coração de misericórdia. Foi o recado que enviou a João Baptista: "Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciado o Reino de Deus". (Mt 11,2 ss) E deixou o caminho para uma prática quotidiana da misericórdia: Tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber... e tudo o que vem a seguir, com uma conclusão: " Tudo o que fizeste ao mais pequenino dos meus, foi a Mim que o fizeste" (Mt 25, 31 ss).

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