O Natal Cristão é um lince ibérico?

Pe. Rafael
Rafael José Almeida Neves é pároco em São Martinho e Santa Marinha, arciprestado de Seia, e Paços da Serra, Mangualde da Serra e Moimenta da Serra arciprestado de Gouveia. Nasceu em 9 de setembro de 1985 em Vale de Estrela, Guarda, e foi ordenado padre a 3 de julho de 2011. Faz parte do Conselho Presbiteral e é presidente do Centro Social Paroquial de Santa Marinha.

Deduz-se, segundo uma hipótese muito provável, que os cristãos de Roma nos primeiros decénios do século IV fixaram na festa civil romana do Sol Invictus, a 25 de Dezembro, a comemoração do nascimento de Jesus. Os cristãos de Roma tiveram a audácia de cristianizar uma festa civil romana, aplicando ao nascimento de Jesus o sentido simbólico do nascimento do sol no solstício de inverno, na medida em que Jesus é o verdadeiro sol de justiça, luz que vence as trevas.

Creio que estamos muito próximos desta geração de cristãos de Roma que aproveitaram a festa civil do Sol Invictus para estabelecer aí, sem pedir licença a ninguém, a solenidade do nascimento de Jesus.

Se no século IV os cristãos cristianizaram uma festa pagã, no século XXI uma festa cristã está sendo, em parte, paganizada. É inegável que muitos dos nossos concidadãos já não acertariam ao explicar adequadamente o porquê do ambiente festivo em torno do Natal. Nas tradicionais celebrações de natal da nossa sociedade globalizada é cada vez mais difícil reconhecer a esperança, a paz, a justiça e reconciliação dos relatos bíblicos que anunciam o nascimento de Jesus.

Não obstante, e apesar das suas ambiguidades, parece-me que ganhamos pouco ao proclamarmo-nos vitimas do consumismo e materialismo dos quais, por outro lado, todos somos cúmplices em maior ou menor grau. Paralelamente, não convém cair naquela sensação de derrota «que nos transforma em pessimistas lamurientos e desencantados com cara de vinagre» (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 85). A situação presente, como ‘tempo de Deus’ que é, está repleta de oportunidades. Além disso «o olhar crente é capaz de reconhecer a luz que o Espírito Santo sempre irradia no meio da escuridão» (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 84).

Neste sentido as vivências que partilhamos estes próximos dias em torno do Natal, com crentes e não crentes, são uma oportunidade renovada que podemos aproveitar para gozar a rutura do tempo normal que supõe a celebração de festas e para descobrir o admirável intercâmbio que o Natal proclama: a presença de Deus feito Menino no meio de nós, Deus que se fez nossa família, que se manifestou solidário com todos os homens da terra. A partir do Natal já não se pode falar de Deus como alguém cuja vida existe à margem da nossa.

Afinal a atual sociedade de consumo roubou-nos o Natal cristão ou são os cristãos que não sabem torná-lo presente? Para cuidar este ameaçado lince ibérico, animal em vias de extinção, que é o Natal cristão, falta tornar visível no Natal (e em todo o ano) a alegria e o gozo deste facto, em Jesus de Nazaré, Deus decidiu fazer-se homem, partilhando a nossa existência débil de criaturas!

Agora cabe-nos a nós apreender a sagacidade daqueles ‘filhos da luz’ do século IV em Roma para recuperar uma festa que é nossa.

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