O Sacramento da Confissão no Ano da Misericórdia...

O Ano Santo vai caminhando a seu passo santo, confortado pelo anúncio da misericórdia divina que quer ser “ainda mais” efectiva durante um ano inteiro. Durante qualquer Ano Santo costuma haver um muito maior acesso ao confessionário, real ou pressuposto. Trata-se da celebração do sacramento da Penitência. Mas é igualmente conhecido por “sacramento da Reconciliação” (porque garante uma passagem real de uma situação de menor ou inexistente amizade com Deus, com os outros e até connosco mesmos para uma nova situação de paz, de diálogo e de amor); e por “sacramento da misericórdia” no qual somos graciosamente perdoados e limpos de todo o pecado.

O Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização preparou um interessante livro (A confissão sacramento da misericórdia - ed. Paulus 2015, p. 135), em que se explica este sacramento através de um método que segue passo a passo o próprio sacramento da Confissão, assim chamado porque através dele o penitente proclama (=”confessa”) o amor de Deus benevolente para com o pecador e em que o próprio pecador se reconhece culpado através do encontro privado que tiver com um confessor.

O que deve fazer qualquer penitente ao aproximar-se deste sacramento? Segundo a obra citada, deve abrir a Bíblia e escutar uma palavra com sentido penitencial como vinda diretamente da boca de Deus. Esta Palavra viva de convite à penitência, asseguradora do perdão de Deus, reveste formas muito variadas. Muitas pessoas nunca abrirão materialmente Bíblia alguma, mas podem aproveitar qualquer página da Sagrada Escritura nesse sentido, ou um roteiro de exame de consciência que lhes recorda os Dez Mandamentos, ou os preceitos e conselhos evangélicos e os deveres ou omissões de toda a nossa vida, principalmente desde a última vez que nos confessámos.

Caiamos sempre na conta que a Confissão é sempre uma empenhadíssima ação litúrgica; que todo o ato litúrgico é constituído por uma parte essencial que é a proclamação da Palavra de Deus; que a nossa tarefa penitencial deve ter sempre em vista partir da divina Palavra, basear-se nela, para referir ao confessor o índice da nossa fidelidade a essa mesma Palavra. O nosso livro sobre a Confissão começa logo por se referir aos milagres de Jesus como dispensador de perdão (Mc 2,1-12), às suas ações redentoras à procura dos pecadores a fim de os reconduzir ao bom caminho e às suas parábolas (ou ao seu ensinamento) sobre a misericórdia de Deus que Jesus em Si mesmo pessoalizou. Por fim, tenha-se sempre em atenção, neste contexto, o sacrifício de Cristo na cruz, oferecido a Deus pelos nossos pecados.

Passemos em seguida a outra parte importante do livro em causa. Depois de pegarmos na Palavra de Deus e de nos basearmos nela, o livro leva-nos a abrir com a mesma determinação o ritual litúrgico do sacramento da Penitência. Aí, penetra-se na liturgia do sacramento, onde sobressai a fórmula da absolvição que o sacerdote invoca sobre nós. Dizemos “invoca” porque o sacerdote a reza com solenidade (embora às vezes as aparências exteriores nem nos façam notar isso). Essa invocação apoia-se na unção sacerdotal de que o sacerdote está revestido desde a sua ordenação sacerdotal. Exatamente e tal e qual como faz na Eucaristia para que a consagração (ou o sacrifício sacramental de Cristo) se realize, o confessor enquanto reza (mas não decreta) a fórmula de absolvição prevista, impõe as mãos sobre o penitente indicando deste modo que lhe confere o dom do divino Espírito Santo prometido para a remissão dos pecados. Depois, todas as palavras da fórmula de absolvição são um breve compêndio da teologia e espiritualidade do sacramento. O alcance trinitário do sacramento intervêm, de maneira própria, em cada uma das Três Pessoas divinas. Põe em relevo a ação do Espírito Santo nesse sacramento explicando bem tratar-se de um sacramento ao mesmo tempo absolutamente pneumático e pascal, servindo-se para isso da citação da página de Jo 21,21-22 em que se vê o Ressuscitado a apresentar-Se junto dos Apóstolos impondo-lhes as mãos e entregando-lhes o dom do Espírito Santo para a remissão dos pecados. Isto significa que o sacramento realiza efetivamente a redenção acabada de operar na páscoa de Cristo.

Por fim, a ligação do sacramento da Penitência com a Eucaristia. Os cristãos fazem uso do dom do sacramento da Penitência para serem plena e mais dignamente integrados como membros do Corpo de Cristo, que é o principal efeito (e todos os sacramentos devem ser estudados a partir dos seus efeitos!) da Eucaristia. Assim, também o alcance eclesial destes dois sacramentos é por demais evidente: a Igreja é uma sociedade muito diversificada de união com Cristo, com Deus e com as Três Pessoas divinas!

Há ainda a contemplar os efeitos sociais e comunitários do sacramento da Penitência. Ele é o remédio salutar para um mundo dividido e dilacerado, injusto e desigual; para as famílias dilaceradas e com falta de paz doméstica e de vizinhança. Não nos admiremos que o confessor nos dê como penitência a prática das obras de misericórdia, ou pelo menos de alguma delas em concreto.

Pe. Mário Santos, SSP
Sacerdote Paulista, diretor da revista «Síntese» da Paulus Editora

 

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