D. José Manuel Garcia Cordeiro, Bispo de Bragança-Miranda. Nasceu em Vila Nova de Seles, Angola, em 1967.
O grande objetivo da reforma litúrgica operada pelo Concílio não é tanto uma mudança de ritos e textos, mas sim suscitar a formação dos fiéis e promover a ação pastoral que tenha como vértice e fonte a Liturgia.
A promoção de uma formação litúrgica dos cristãos é um veemente convite da Sacrosanctum Concilium. Formar para a Liturgia significa consentir a entrada no mistério cristão. A Liturgia não é tanto uma doutrina a compreender, mas uma fonte de luz e de vida para a inteligência e a experiência do mistério. Ela «é a primeira e necessária fonte onde os fiéis hão de beber o espírito genuinamente cristão. Esta é a razão que deve levar os pastores de almas a procurarem‐na com o máximo empenho, através da devida educação.»
A concretização prática de tal desejo do Concílio passa pela formação teológico‐litúrgica, espiritual e pastoral de todos, em especial pela formação dos pastores. «É um campo em que muito há ainda a fazer: ou seja, para ajudar os sacerdotes e os fiéis a compreenderem o sentido dos ritos e dos textos litúrgicos, para aperfeiçoar a dignidade e a beleza das celebrações e dos locais; e para promover, à maneira dos Padres da Igreja, uma “catequese mistagógica” dos sacramentos.»
A necessidade urgente da formação litúrgica é também recordada pela Exortação Apostólica Pós‐Sinodal Ecclesia in Europa:
[...] “é necessário um grande esforço de formação. Tendo como finalidade favorecer a compreensão do verdadeiro sentido das celebrações da Igreja e ainda uma adequada instrução sobre os ritos, tal formação requer uma autêntica espiritualidade e a educação para vivê-la em plenitude. Por conseguinte, há que promover ainda mais uma verdadeira “mistagogia litúrgica”, com a participação ativa de todos os fiéis, cada qual segundo as próprias competências, nas ações sagradas, particularmente na Eucaristia.”
A formação litúrgica passa também através de uma catequese que favoreça o conhecimento do significado da Liturgia e dos sacramentos. «Embora a sagrada Liturgia seja principalmente culto de majestade divina, é também abundante fonte de instrução para o povo fiel. Efetivamente, na Liturgia Deus fala ao Seu povo, e Cristo continua a anunciar o Evangelho. Por seu lado, o povo responde a Deus com o canto e a oração.» A catequese litúrgica «explica o conteúdo das orações, o sentido dos gestos e dos sinais, educa para a participação ativa, para a contemplação e para o silêncio. Deve ser considerada como “uma forma eminente de catequese”.»
Enfim, a formação litúrgica está intimamente ligada à participação ativa dos fiéis (clérigos, religiosos e leigos) e deve ser realizada tendo em conta «a idade, condição, género de vida e grau de cultura religiosa» de cada um.
Educar à participação no mistério não é somente uma animação litúrgica. Trata‐se de uma verdadeira pastoral litúrgica, no sentido de ser uma ciência e uma arte de tornar os sinais da Liturgia profundamente comunicativos; e de ser um momento de reflexão sistemática sobre a atividade litúrgica da Igreja. Educa‐se à Liturgia através da própria Liturgia.