A Liturgia no Tempo

Até ao Concílio Vaticano II

As origens do culto perdem-se nos alvores da humanidade. O homem, reconhecendo-se pequenino diante de forças que não consegue dominar (divindade), põe em prática acções que o manifestam. Daí foram surgindo, pouco a pouco, os elementos fundamentais do culto: a tendência para Deus (devotio), a entrega a Deus (pietas) e a adoração (latria).

Com a revelação à humanidade do Deus único, a partir de Abraão, e muito mais com Jesus Cristo, foram-se agregando os elementos essenciais que constituem o que chamamos a Celebração: a lembrança de um Acontecimento histórico-salvífico (através da Palavra de Deus), que convoca a Assembleia, onde acontece a Acção litúrgica.

Surgiu, assim, a Liturgia cristã que, no dizer de Pio XII, é o culto completo do Corpo místico de Cristo, ou seja, da Cabeça e dos seus membros, que se dá ao Pai. Concretamente, a celebração cristã, através de símbolos e de ritos evoca e torna presente a salvação realizada pelo Pai em Jesus, com o poder do Espírito Santo.

Com o crescimento da Igreja, a celebração litúrgica foi-se enriquecendo e diversificando. Diferentes povos e culturas, distâncias entre regiões, mudanças políticas e sociais, sensibilidade e criatividade de tantos crentes…fizeram o mosaico harmonioso dos ritos cristãos. 

A liturgia católica foi evoluindo e, nos séculos mais recentes, vinha perdendo parte da sua centralidade na vida da Igreja. Foi-se acentuando o papel do presidente, enquanto a assembleia se acostumava a assistir passivamente. A partir dos anos cinquenta, nomeadamente no que respeita à maneira de celebrar a fé, começou a sentir-se como urgente uma reforma que permitisse uma adaptação da vida eclesial ao mundo em mudança. O desejo de mudar vinha já, pelo menos, desde o início do século 20. Continuar a celebrar a Missa em latim, por exemplo, estava a tornar-se difícil de sustentar.

Foi convocado o Concílio Vaticano II, o qual, votou e promulgou no dia 04 de Dezembro de 1963 a Constituição sobre a Sagrada Liturgia: a Sacrosanctum Concilium (SC). Foi o primeiro documento a ser aprovado pelo Concílio e um dos que teve maior impacto e visibilidade, mesmo para a sociedade em geral. É a carta magna da celebração litúrgica para a Igreja católica atual. No seu número 10, afirma esta Constituição que a liturgia é fonte e cume de toda a vida da Igreja. A partir desta convicção, foi recordado também que todos os batizados participam ativamente (não assistem) nas celebrações litúrgicas, onde acontece a principal manifestação da Igreja como Povo santo de Deus, especialmente na Eucaristia. 

A liturgia é uma acção cultual dirigida a Deus em que o sujeito integral desta acção litúrgica é sempre a Igreja. Com o presidente e os diferentes ministérios litúrgicos, a assembleia é também celebrante. Na liturgia “os sinais sensíveis significam e, cada um a seu modo, realizam a santificação do homem e, assim, o Corpo místico de Cristo (…) exerce o culto público e integral” (SC 7).

Para explicar melhor o papel da participação dos fiéis na liturgia, o Concílio Vaticano II escreve que ela há-de ser: interna e externa, consciente, activa, plena, frutuosa, adaptada à situação dos fiéis, comunitária...( SC 11, 14, 19, 21, 26-30, 48). O desejo do Concílio, em relação à liturgia, pode ser traduzido pela passagem bem conhecida da Constituição: “A liturgia é o cume para onde se dirige toda a acção da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde brota a sua força” (SC 10). Ou seja, a liturgia é o coração de tudo! É na liturgia que o cristão renova a fé e encontra força para a missão… Este documento ajudou muito na reforma conciliar, já que provocou uma revisão do modelo de Igreja, propondo uma igreja mais participativa, ministerial e preocupada em se adaptar às diferentes culturas, à índole dos povos, etc.

Atualidade e futuro da liturgia

Muito se avançou na participação dos leigos nas celebrações litúrgicas, especialmente na Eucaristia dominical. Na comunhão eucarística durante a Missa, na leitura, no canto, nas respostas, na própria preparação das celebrações, etc, progrediu-se.

Infelizmente, o comodismo dos fiéis ou dos pastores leva a que a celebração da fé continue a ser vista, por vezes, como “coisa” de padres e de freiras. Na Igreja Católica, a Liturgia tem de continuar a ser a grande pedagoga, a educadora que forma o povo para a vida cristã. O cristão não é apenas um carimbado com o selo de Cristo, mas aquele que segue Jesus Cristo! A preocupação do Concílio não consistiu apenas, portanto, em introduzir mudanças nos ritos, normas e formas exteriores na liturgia, mas, e sobretudo, em fomentar uma verdadeira educação litúrgica dos fiéis. 

As comunidades devem preocupar-se para que a Liturgia se torne realmente mestra de vida cristã. Através de palavras, símbolos, silêncio, gestos, músicas...participar corporal e espiritualmente. As ações litúrgicas são ações do próprio Cristo e do seu Espírito para nos tornar participantes da sua vida, para vivermos constantemente em comunhão com ele e com o Pai. Lê-se na Sacrosanctum Concilium: “Para promover uma participação ativa, trate-se de incentivar as aclamações do povo, as respostas, a salmodia, as antífonas e cânticos, bem como as ações e gestos do corpo” (SC 30).

Cinquenta anos será pouco para esgotar o tesouro desta Constituição sobre a Liturgia. A tentação existe de querermos uma fuga para a frente. Já S. Paulo falava do perigo de se querer só coisas novas. O Papa S. João Paulo II escreveu, quarenta anos após a promulgação da Constituição sobre a Liturgia: «O que é a Liturgia senão aquela fonte pura e perene de “água viva”, da qual cada pessoa sedenta pode haurir gratuitamente o dom de Deus?”. A liturgia é pois fonte, ápice e escola de espiritualidade. O lugar principal, a fonte 'primeira e necessária' para recebermos o Espírito Santo de Deus (SC 14), são as celebrações litúrgicas: a eucaristia, o baptismo, a confirmação, a liturgia das horas…

A liturgia viveu, depois dos primeiros anos da reforma litúrgica, uma fase de crise, dominada pela perda de entusiasmo, desencantada por não obter rapidamente os resultados que se esperavam em relação aos generosos esforços iniciais. Esperava-se uma “utilidade” pastoral, que não lhe correspondeu, porque a liturgia, de facto, não é um instrumento de pastoral, mas ação pastoral própria da Igreja no seu núcleo e na sua fonte.

Especialmente desde o início do terceiro milénio, para uma renovação duradoira, apela-se à espiritualidade litúrgica. Uma liturgia que fomente a espiritualidade e mística da missão no mundo, tendo como fonte a participação na liturgia. Para continuarmos fiéis ao espírito da reforma litúrgica conciliar há que combater também qualquer tentativa de regresso ao rubricismo, clericalismo, ritualismo …assim como a uma liturgia-espetáculo na tentativa de atrair multidões.

A Igreja, Corpo de Cristo, é o primeiro sinal sacramental por meio do qual se torna presente, na história, o dom da salvação. Através dela, Cristo continua atuando no mundo e tornando possível que os homens se unam a Deus. Isto acontece pela caridade, no meio do mundo, mas sobretudo através da assembleia litúrgica, onde acontecem os sacramentos e os outros sinais...

Será que, mais de 50 anos depois da Sacrosanctum Concilium, o grande objetivo do Concílio já foi suficientemente compreendido e assimilado pela teologia e pela pastoral, para que se dê à liturgia o seu lugar próprio na vida da Igreja? Será que se tem mesmo favorecido a verdadeira participação dos cristãos nos mistérios celebrados? Após cinco décadas, podemos constatar com satisfação que a reforma litúrgica é um dos frutos mais preciosos e mais visíveis do Concílio.

Neste tempo de incertezas e de transições intermináveis, creio que precisamos de aperfeiçoar as nossas celebrações mantendo, porém, aquela coluna vertebral que nos desenha a SC. No respeito desta continuidade, que vai beber às fontes do início da Igreja, a Lex orandi continuará a ser a Lex credendi (no que se reza está o fundamento daquilo em que se crê).

 

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