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A excecionalidade da ternura (*)

Cristina Sá Carvalho 
Cristina Sá Carvalho é psicóloga de formação, professora universitária e diretora do Departamento Nacional de Catequese

Como facilmente se repara, a exortação apostólica que o Papa Francisco datou de 19 de março é um documento extenso para o qual o próprio autor sugere uma leitura dinâmica, ancorada nas preferências e necessidades do leitor. E também uma leitura empática, baseada na capacidade de este último se colocar no ponto de vista de quem escreve e, sobretudo, atendendo ao seu carácter pastoral, daqueles muitos e variados de quem fala.

Exige, pelo menos por isso, um esforço de diálogo com os pontos de vista sugeridos e as propostas veiculadas que não deve ser superficial nem é imediato. Assim, limitar-me-ei a sublinhar, imperfeitamente, algumas questões estruturais vertidas nas primeiras páginas e a enumerar os temas das seguintes que me parecem mais relevantes ou, pelo menos, respondem melhor às minhas preocupações. Faço-o em homenagem ao texto mas também porque me parece que deve e pode ser lido, com grande proveito, por qualquer pessoa de boa vontade, sobretudo se exercer funções de responsabilidade em algum sector relevante da sociedade moderna. Não dará o seu tempo por perdido.

O documento começa por referir o desejo de família que os jovens continuam a manifestar e propõe uma análise honesta, realista e criativa da sua problemática, uma oportunidade, com o intuito de aumentar a clareza da discussão em seu torno. Recorrendo de novo ao modelo do poliedro, já antes utilizado pelo Papa para ilustrar a sua ideia, positiva, de globalização, refere-se que há maneiras diversas de interpretar alguns aspetos da doutrina e que as soluções devem inculturar-se na tradição local. Pedindo misericórdia e proximidade para as famílias onde o projeto se realiza menos perfeitamente, define a família como o espaço essencial do amor forte e dos valores de generosidade, compromisso, fidelidade e paciência, insubstituível no seu papel educativo e na transmissão da fé. Longe está, pois, o comunitarismo das esquerdas e o individualismo das direitas.

Mais adiante, a família (apreciei que ainda fosse designada pelo antigo termo de Igreja doméstica) é referida pela presença do sofrimento, da ansiedade e da tensão, mas também da ternura, da coragem e da serenidade. E, entre as misérias e os maiores bens da vida familiar, menciona-se, com destaque, a necessidade de a Igreja não continuar a ler a família através de teses abstratas, a partir de um ideal teológico distante das possibilidades das pessoas. O texto indica claramente a exigência de uma pastoral positiva, de humildade e realismo: «ideal exigente e proximidade», família e Igreja companheiras de viagem.

Naturalmente, os primeiros capítulos também descrevem bem as ameaças a que a família está atualmente sujeita, vista a partir de uma cultura do provisório, do descartável, da afetividade infantil e narcisista, mas também aquela que resulta das representações sobre a natalidade, o inverno demográfico, as migrações, a miséria, o desemprego e a precariedade, a tecnologização das relações, o consumo das drogas, os idosos sem proteção, o desamparo no esforço excecional de educar os filhos portadores de deficiência. Uma decadência cultural que não promove o amor e a doação, mas contribui para o enfraquecimento da família, sociedade natural, o que não é um bem para a sociedade, para o futuro do mundo e da Igreja. Também não é irrelevante que o Papa volte a referir que é preciso defender os ainda pouco firmes direitos das mulheres e que não foi a emancipação destas que conduziu aos problemas da família: «é falso!».

Gostaria de sublinhar a forma clara, acessível e respeitosa como são tratadas questões sensíveis como a ideologia de género, a homossexualidade, as crises familiares e o divórcio, mas também toda a explicação sobre o sacramento do matrimónio e o amor. Este último é explanado a partir do tesouro teológico, religioso e literário que é a lindíssima Carta de Paulo aos Coríntios, num conjunto de parágrafos cheios de sensibilidade, sabedoria e aconselhamento saudável e oportuno sobre o casal e a sua vida familiar.
Como referi anteriormente, há um conjunto de temas desenvolvidos nesta exortação pós-sinodal que me é caro. Destacaria o reforço da educação dos filhos, com a necessidade de acompanhar os casais e as famílias, a importância da catequese familiar, a educação para a parentalidade, o sim à educação da sexualidade (num modelo de educação para o amor) e a educação ética e religiosa de cada um, numa lógica de integração e aceitação da fragilidade, que é aquilo que cada um de nós vive na sua própria família. Percebemos que o Papa gosta de nós… e que connosco partilha um texto cheio da inteligência e do realismo que nascem da fé vivida com ternura, capaz de nos oferecer uma esperança responsabilizada e responsabilizante em tempos históricos conturbados. A meu ver, é esse o segredo da sua distinta excecionalidade.

(*) www.rr.pt

 

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