“Como o Pai me enviou eu também vos envio” (Jo20, 21)
A misericórdia é o próprio coração (da missão) de Deus
Na Mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2016, “Igreja Missionária, testemunha da Misericórdia”, o Papa Francisco faz uma reflexão sobre a missão ad gentes como “imensa obra de misericórdia”. Dando traços ainda mais palpáveis ao que já havia sido proposto na Bula Misericordiae Vultus, ele fala do que significa a experiência da misericórdia divina a partir da Sagrada Escritura:
“É o Deus benigno, solícito, fiel; aproxima-se de quem passa necessidade para estar perto de todos, sobretudo dos pobres; envolve-se com ternura na realidade humana, tal como fariam um pai e uma mãe na vida dos seus filhos (cf. Jr 31,20). É ao ventre materno que alude o termo utilizado na Bíblia hebraica para dizer misericórdia: trata-se, pois, do amor duma mãe pelos filhos; filhos que ela amará sempre, em todas as circunstâncias suceda o que suceder, porque são filhos do seu ventre. (...) perante as suas fragilidades e infidelidades, o seu íntimo comove-se e estremece de compaixão (cf. Os 11, 8).”
Vemos como aqui transparece a imagem de Deus como Mãe extremosa de amor, como Pai que não deixa de se preocupar de seus filhos, pois são o fruto de sua própria carne. Assim, a misericórdia em Deus é mais do que uma condescendência para com os erros de seus filhos. As imagens empregadas pelo Papa recordam a dor que comove as entranhas e as vísceras do Pai e da Mãe que sofrem pela sorte de seus filhos. Antes de ser uma ideia, é uma comoção que se agita no mais íntimo de Deus, e que o move para sair em socorro dos filhos que por Ele clamam.
Assim, no coração da Trindade, encontramos o Mistério da Misericórdia Divina, da insondável maternidade de Deus, tão longe da nossa capacidade de entendimento. E, no entanto, como afirma o Papa Francisco, a misericórdia “é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa”, e que o assemelha profundamente ao próprio Deus, e por isso é também “caminho que une Deus e o homem”. (MV2) Dessa forma, podemos também dizer que a Missio Dei, a Missão de Deus, origem e fundamento de toda missão da Igreja, nasce desse mesmo impulso da misericórdia divina: “coração pulsante do Evangelho”. (MV 12)
Contemplar o Mistério da Misericórdia: o quotidiano da missão de Jesus
No Ano Santo da Misericórdia, somos convidados a contemplar esse Mistério que reside no coração da Trindade, na forma como ele se revelou para nós, na prática e nas palavras de Jesus de Nazaré. Ele é, de fato, o “rosto da misericórdia de Deus”. Acompanhando como Jesus realiza a missão que recebeu do Pai, podemos aprender como viver a nossa missão, como anúncio dessa misericórdia divina. Para tanto, podemos observar com atenção um dia na vida de Jesus, durante seu ministério na Galileia, ao anunciar o Reino de Deus, e ver o modo como Ele realiza sua missão.
Em Mc 1, 21-39, temos a descrição de um dia na missão de Jesus, desde a manhã até a noite. Vemos como participa de um encontro da comunidade, na sinagoga do povoado, e ali expulsa um espírito maligno que perturba a vida das pessoas. Depois, segue para uma visita à casa de Pedro, em que se aproxima e dá atenção à sua sogra, para curá-la, e também ser servido por ela. À tarde, dispensa longo tempo na acolhida de tantos doentes que o procuram, à frente da casa de Pedro. Ao anoitecer, procura um local e o momento adequado para seu encontro de oração na intimidade do Pai. Na madrugada, o povo continua a busca-lo, mas Jesus não se deixa prender, pois sua disponibilidade missionária continua a enviá-lo para o anúncio do Reino em todos os lugares.
Como tantas outras passagens bíblicas, que demonstram pelos atos e palavras de Jesus a ação da misericórdia de Deus, esse trecho ajuda a descobrir detalhes sobre como Jesus vivia sua missão no dia-a-dia. Podemos destacar sua completa disponibilidade para a missão que recebeu do Pai, não reservando tempo para si, mas sempre procurando o encontro com as pessoas, se aproximando principalmente dos que mais sofrem. É, de verdade, um ser para os outros. Essa disponibilidade significa também uma grande liberdade interior, um desprendimento e uma generosidade que encontra raízes em sua união com o Pai. Foi essa atitude de vida que conferiu “autoridade” às suas palavras, que não era como a “dos escribas”, dando credibilidade ao anúncio do Reino de Deus junto aos pobres e pecadores.
Assim, olhando como Jesus vivia sua missão podemos contemplar a própria misericórdia em ação. É observando Jesus que podemos compreender que “cada ensinamento da doutrina deve situar-se na atitude evangelizadora que desperte a adesão do coração com a proximidade, o amor e o testemunho”. (EG 42) Acompanhar Jesus significa aprender com ele a ser “manso e humilde” de coração, e como discípulos missionários participar dessa Missão de Deus: anunciar essa mesma mensagem de misericórdia assim como o Mestre a vivenciou.
Brasília, 06 de junho de 2016 Pe. Sidnei Marco Dornelas, CS
Comissão Episcopal para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial – CNBB