Para onde vais, Igreja da Guarda?

António Salvado Morgado, Jornal A Guarda,  25 Agosto 2017

Com a devida vénia e metendo a foice em seara alheia, ou talvez não, atrevo-me a encimar este texto com a pergunta, tanto atrevida como retórica: Para onde vais, Igreja da Guarda?
A 12 de Dezembro de 1965, na famosa Sala Hércules de Munique, o teólogo conciliar Karl Rahner, acabado de chegar de Roma, pronunciou uma célebre conferência que depois viria a fazer noutros locais, incluindo em Friburgo, sua terra natal.
O acontecimento marcou a capital da Baviera e, nos dias seguintes, o teólogo foi assediado dos vários quadrantes para a cedência do manuscrito. O texto viria a ser publicado no início de 1966 na «Die Sendung», uma revista alemã de cunho teológico dirigida particularmente aos leigos. A conferência era apresentada - passe o alemão - com o título, «Das Konzil, ein neuer Beginn». Título bem significativo: terminado o Vaticano II, um dos seus teólogos de maior renome vem anunciar que o concílio implicaria um novo começo. O texto, que eu saiba, só foi difundido em português em 2013, pela Editorial Franciscana, com o título «O Concílio – começar de novo», quando se aproximava o cinquentenário do encerramento do concílio Vaticano II, um dos acontecimentos mais significativos para o mundo na época actual e, sem dúvida, o mais marcante na vida contemporânea da Igreja.
Ocorreu-me a leitura deste texto de Karl Rahner agora que a Igreja da Guarda vem vivendo em Assembleia Diocesana que já reuniu em três sessões plenárias para discutir e aprovar proposições que vinham sendo preparadas ao longo de anos. O desafio lançado pelo bispo diocesano estava expresso em duas perguntas: «Que Igreja somos?» e «Que Igreja queremos ser?»
Karl Rahner introduz a conferência do seguinte modo: «O Concílio terminou. Sempre que algo bom chega ao fim, fica-nos um misto de gratidão, de encanto e de medo perante o mistério da história. E interrogamo-nos: o que aconteceu verdadeiramente? O que virá a seguir? É assim também no Concílio. E interrogamo-nos: o que aconteceu, onde estamos, o que será o futuro?» E nós, em paráfrase, num «misto de gratidão, de encanto e de medo perante o mistério da história», poderemos também interrogar-nos: «o que aconteceu (ou está acontecendo), onde estamos, o que será o futuro?» Em suma: para onde vais, Igreja da Guarda?
Ninguém, certamente, poderá responder com verdade a tão atrevida pergunta, nem mesmo, creio bem, o bispo diocesano. Mas também se poderá de novo parafrasear a teólogo do concílio e concluir: Seria um «erro terrível, e um tremendo ofuscamento do coração» pensar que, depois da Assembleia Diocesana, poderia continuar tudo na mesma. Pensar assim, seria admitir que aquilo que se disse e discutiu, o que se votou e aprovou, não foi senão «o óbvio de sempre e coisas sem importância» tudo tratado numa espécie de «simples exercícios piedosos para própria justificação e edificação» e que vai ficar esquecido nos papéis sem consequências práticas para a vida das comunidades cristãs da histórica diocese da Egitânia. Não podem ficar frustradas as expectaticas que se foram criando ao longo de vários anos.
Para onde vai a Igreja da Guarda ninguém o poderá certamente dizer. Mas passadas várias dezenas de anos, poderão ressoar, como detonador de vida, as palavras do teólogo Rahner: «Toda a subtileza teológica, todo o dogma, todo o direito canónico, todas as adaptações e novidades da Igreja, todas as instituições, todo o magistério e seu poder, toda a santa liturgia e as missões corajosas têm só um objectivo: fé, esperança e amor a Deus e aos homens… Sobre um concílio devem estar sempre as palavras: restam a fé, a esperança e a caridade, as três. Mas o amor é o maior.»
Escreve o papa Francisco na Exortação Apostólica «A Alegria do Evangelho»: «O mundanismo espiritual, que se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja, é buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal. É aquilo que o Senhor censurava aos fariseus: «Como vos é possível acreditar, se andais à procura da glória uns dos outros, e não procurais a glória que vem do Deus único?» (93). E um pouco adiante: «Dentro do povo de Deus e nas diferentes comunidades, quantas guerras! No bairro, no local de trabalho, quantas guerras por invejas e ciúmes, mesmo entre cristãos! O mundanismo espiritual leva alguns cristãos a estar em guerra com outros cristãos que se interpõem na sua busca pelo poder, prestígio, prazer ou segurança económica. Além disso, alguns deixam de viver uma adesão cordial à Igreja por alimentar um espírito de contenda. Mais do que pertencer à Igreja inteira, com a sua rica diversidade, pertencem a este ou àquele grupo que se sente diferente ou especial.» (98). E conclui o papa, numa espécie de apelo de vontade sonhadora e de esperança cristã: «Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno» (101)

Por aqui me fico, não sem antes lembrar algumas expressões que se apresentam como uma espécie de campo semântico do mesmo papa: «Discernimento», «Igreja em saída», «periferias», «desfazer muros» e «construir pontes». Ou então a força de algumas frases tão acentuadas naquele documento: «O tempo é superior ao espaço» (222-225), «A unidade prevalece sobre o conflito» (226-230), «A realidade é mais importante do que a ideia» (231-233), «O todo é superior à parte» (234-237). Bem poderiam elas constituírem-se como uma espécie de programa de conversão pessoal e comunitária, porque o tempo do espírito é superior ao espaço de um qualquer território paroquial, a unidade dos baptizados em Cristo tem de prevalecer sobre qualquer conflito e rivalidade, a realidade do Povo de Deus no mundo é mais importante do que a veleidade de qualquer ideia e sempre o todo da Igreja Local, a Diocese, é superior a qualquer das suas partes, territórios, organismos ou movimentos.
Fico a rememorar o cartaz do Ano Pastoral 2016-2017 que ao longo de meses pudemos encontrar por todo o espaço da igreja diocesana com o convite a percorrer os «Caminhos de Comunhão na Caridade: Rumo à Assembleia Diocesana». Por isso de novo a pergunta: para onde vais, Igreja da Guarda? «Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno».

 

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