De Gurúè a Elope são cerca de 150 quilómetros. Viajava com o bispo, um missionário dos seus 70 anos, e a estrada era bastante boa. Chegámos em menos de três horas. Estamos na zona norte de Moçambique chamada Zambézia.
Tínhamos apenas terminado uma sessão de formação para sacerdotes a trabalhar nos seminários diocesanos deste país. De regresso a Maputo, passando por Nampula, aproveitei para participar na grande festa da comunidade cristã de Elope, nesse domingo. Era a bênção solene da capela finalmente renovada com a colaboração dos cristãos dessa aldeia. Elope é uma das 70 comunidades daquela zona que o bispo quer estabelecer em breve como uma nova paróquia.


Uma pedra descoberta, numa das paredes da capela, tinha escrita uma data: 1971. Um dos leigos encarregados daquela comunidade explicou: «Em 1971, tinha chegado ali o primeiro missionário, um tal padre Vicente, da Sociedade Missionária Portuguesa (hoje Missionários da Boa Nova). Foi ele que ali fez construir a primeira capela dedicada ao mártir São Sebastião.»


Na missa de inauguração, a capela estava cheia até mais não poder, e muita gente ficou sentada fora, escutando pelas janelas. «Em 71», diz-me um dos anciãos, «éramos 50, hoje somos mais de 600!»
Ainda não têm um padre residente. O sacerdote que lá passa de vez em quando mora na próxima paróquia, a muitos quilómetros de distância. Os cristãos estão a construir-lhe uma casa, na esperança de que ele um dia possa vir viver com eles.


Como conseguiram crescer tanto?, perguntei. «Padre», disse-me o ancião, «é a dança da roda!» Não tive tempo para pedir explicação porque já me chamavam para outro lado. Compreendi pouco depois, quando começaram a dançar. No meio do terreiro ao lado da capela, tinham-se sentado o grupo de músicos que tinham acompanhado os cânticos durante a missa: dois homens, cada um com o seu tambor, um grande xilofone tradicional tocado a quatro mãos, e um outro instrumento que não cheguei a identificar mas tinha um som parecido com o de um pandeiro. Ao lado deles, um pequeno grupo de homens e mulheres começaram a cantar com alegria, e logo começaram a dançar numa roda à volta dos músicos. Muita gente estava ali perto cantando ou simplesmente olhando com ar divertido. À medida que a roda ia girando, aqui e ali um dos dançadores saía da roda, punha-se a dançar à volta de um dos espectadores e trazia-o para a roda da dança. Cada um dos novos que ia entrando fazia alargar a roda e, depois de meia-volta, já podia, por sua vez, sair, dançar à volta de outro e trazê-lo para a roda. Depois de meia hora de dança, a roda tinha-se alargado tanto que havia mais de um cento de pessoas a dançar, enquanto os músicos pareciam não ter limites de energia!!!


O padre que lá vai de vez em quando explicou-me que tinham inventado eles aquela dança: usavam um ritmo tradicional para dizer, dançando, o que a comunidade cristã é para eles, a dança da roda: quem entra vive a alegria de dançar com muitos outros e tem logo vontade de sair e convidar outros. Acho que era isso que o ancião me queria explicar dizendo que se tinham passado de 50 a 600 era por causa da dança da roda.
O Espírito Santo nunca esgota a sua criatividade! Que bom seria se cada comunidade cristã no mundo fosse uma dança da roda como esta!

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