Pe. António Jorge dos Santos Almeida. Natural da diocese de Viseu. Sacerdote desde o ano 1998. Desempenha as seguintes funções na sua diocese: Reitor do Seminário Menor de São José e doSeminário Maior de Nossa Senhora da Esperança. Diretor do Seminário em Família. Diretor do Secretariado Diocesano do Clero. Diretor do Secretariado Diocesano da Pastoral das Vocações, Juventude e Ensino Superior.
«Os jovens, a fé e o discernimento vocacional» é o tema proposto para a 15ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos marcada para outubro de 2018, que nasce da solicitude pastoral da Igreja manifestada especialmente desde a 14ª Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos. A importância dada ao acompanhamento dos jovens é, já, um dos traços da fecundidade da reflexão sobre a situação da família, condensada no programa pastoral que constitui a Amoris Laetitia, e tem como objetivo: acompanhar os jovens no seu caminho existencial para a maturidade, de forma que, através de um processo de discernimento, possam descobrir o seu projeto de vida e realizá-lo com alegria, abrindo-se ao encontro com Deus e com os homens e participando ativamente na edificação da Igreja e da sociedade.
A surpresa deste tema – mesmo que tenha sido fruto de uma consulta do Santo Padre às Conferências Episcopais, às Igrejas Orientais Católicas e à União dos Superiores Gerais –, remete-nos certamente para aquele ícone que nos acompanhou na vivência do Ano Santo da Misericórdia, entre estas duas assembleias gerais do Sínodo dos Bispos, imaginando o Sumo Pontífice naquela imagem com um dos olhos postos nas urgências da resposta às diversas situações da família e o outro cruzado na emergência de acompanhar aqueles jovens que, nas periferias da existência terrena, vivem hoje uma travessia não menos dramática que a própria situação da família.
Este olhar não é estático ou meramente reflexivo, desde fora, mas dá certezas de estar imerso na experiência do encontro com os jovens, de que a Jornada Mundial da Juventude é um dos mais expressivos exemplos. Isto leva-nos a suspeitar que, diante da multidão dos jovens representada naqueles que se deslocaram a Cracóvia 2016, a compaixão do Papa seja a mesma que a de Jesus ao contemplá-la como “ovelhas sem pastor” (cf. Mt 9, 36). Providencialmente, já em 2015, os bispos portugueses foram alertados, pela perspicácia deste olhar misericordioso, para os jovens “em debandada”, motivados a sentir esta porção da “messe grande” como que a precisar de trabalhadores (cf. Mt 9, 37). Naquela ocasião, a convicção do Sumo Pontífice já se revelava como profecia: a Igreja em Portugal precisa de jovens capazes de dar resposta a Deus que os chama, para que volte a haver famílias cristãs estáveis e fecundas, consagrados e consagradas e sacerdotes imolados com Cristo pelos seus irmãos e irmãs.
A reação a esta forma de colocar a questão sobre a realidade dos jovens, à qual se pede resposta pastoral, foi múltipla como, aliás, é amplamente plural, no conjunto das nossas dioceses dentro deste pequeno espaço nacional, a oferta de caminhos para o acompanhamento dos jovens. No entanto, fugindo a qualquer tipo de pretensiosismo ou à mera generalização, não posso esconder que observo – no meio de alguma confusão pastoral neste âmbito – subjazer a verdadeira realidade dos jovens por detrás da aparência que se pretende servir, cuja globalidade não pode ser totalmente tocada pela partícula que é cada um dos setores ou movimentos da Igreja identificados com o carisma de acompanhar os jovens. Esta humilde constatação liga-se diretamente com a convicção de que o processo da fé e do discernimento vocacional de cada jovem só pode resultar de uma manifesta unanimidade das instituições que constituem a Igreja a seu respeito. Na verdade, já na sociedade onde eles procuram a sobrevivência humana e profissional, são, muitas vezes, obrigados a confrontar-se com muitas contradições sem nexo, que só pode mantê-los em suspenso. A reflexão sobre a unidade e a diversidade entre a dimensão hierárquica e carismática da Igreja, recentemente emanada por uma das Congregações Pontifícias, não deve estar fora da intenção do Santo Padre de nos levar a fazer um exame de consciência nesta matéria.
Entretanto, o Papa Francisco, com a sua capacidade de se fazer próximo, fez acompanhar o documento preparatório deste próximo sínodo com uma Carta endereçada aos jovens (13.01.2017), na qual especificamente os convida a estar «em saída», não no sentido de «debandada», mas no sentido de uma busca de vida plena, a partir da amizade com Jesus, uma vez que garantidamente o mundo não será melhor sem eles.
O documento preparatório para este próximo Sínodo mete-nos – aos jovens e a quem se aproxima do seu caminho – «nos passos do discípulo amado». É nesta condição de uma experiência do amor divino como “dado de facto” que a Igreja os convida a caminhar para a “aquisição do ideal”. A partir daqui, a Igreja faz-nos revisitar a realidade atual da condição juvenil para, depois, tentar a presentar a “gramática” do discernimento da vocação cristã em vista a introduzi-los na ação pastoral a partir de uma nova pedagogia. Mas este não é, ainda, o ponto de chegada. Senão não seria preciso um Sínodo! O documento, como foi praxe nas vésperas de outras Assembleias Plenárias, tem uma substanciosa, ainda que não fechada, proposta de questionário, que nos abre as portas a um poderoso “laboratório” onde os diversos organismos podem apresentar dados coletados da observação da condição juvenil e partilhar a interpretação dos mesmos.
Diante destes preliminares, concluo que esta é uma hora grande importância para a Igreja no mundo, não só porque se ousam criar novas pontes dentro do vasto “jardim” que é a experiência da família, mas também porque as futuras gerações necessitam que testemunhos jovens lhes façam chegar com renovada alegria a experiência da entrega à causa de Jesus que é a vida abundante para todos.
Os jovens serão capazes de se entregar por um Amor que sentem dar-se-lhes todo. E descobri-lo em Jesus Cristo depende também da unidade na Igreja.