Do «façam barulho», pronunciado há três anos na sua primeira Jornada Mundial da Juventude, à exortação para sujar as mãos, recomendada há pouco mais de um mês: são algumas expressões, sob a forma de imperativo feliz, dirigidas aos jovens e pronunciadas exclusivamente de improviso, como Francisco gosta de fazer quando responde a perguntas ou acrescenta um pouco de pimenta aos seus discursos, deixando de lado o texto escrito preparado para a ocasião.
Recolhemos dez frases do papa Francisco sobre os jovens:
Espero que façam barulho
«Desejo dizer-lhes qual é a consequência que eu espero da Jornada da Juventude: espero que façam barulho. Aqui farão barulho, sem dúvida. Aqui, no Rio, farão barulho, farão certamente. Mas eu quero que se façam ouvir também nas dioceses, quero que saiam, quero que a Igreja saia pelas estradas, quero que nos defendamos de tudo o que é mundanismo, imobilismo, nos defendamos do que é comodidade, do que é clericalismo, de tudo aquilo que é viver fechados em nós mesmos.» (25/7/2013, Jornada Mundial da Juventude, Rio de Janeiro)
Não olhem a vida da varanda
«Por favor, não deixem para outros o ser protagonistas da mudança! Vocês são aqueles que tem o futuro! Vocês… Através de vocês, entra o futuro no mundo. Também a vocês, eu peço para serem protagonistas desta mudança. Continuem a vencer a apatia, dando uma resposta cristã às inquietações sociais e políticas que estão surgindo em várias partes do mundo. Peço-lhes para serem construtores do mundo, trabalharem por um mundo melhor. Queridos jovens, por favor, não olhem a vida da varanda, entrem nela.» (25/7/2013, Jornada Mundial da Juventude, Rio de Janeiro)
Não beber a fé espremida
«Há a laranja espremida, há a maçã espremida, há a banana espremida, mas, por favor, não bebam fé espremida. A fé é integral, não se espreme». (25/7/2013, Jornada Mundial da Juventude, Rio de Janeiro)
Não aos jovens de museu, sim aos jovens santos
«Não devemos ter a psicologia do computador que pretende saber tudo. Todas as respostas estão no computador, nenhuma surpresa.
Não a jovens de museus, mas jovens santos, e para serem santos precisam de usar três linguagens: pensar bem, ouvir bem, fazer bem. E deixar-se surpreender pelo amor, e esta é a boa vida.» (18/1/2015, viagem ao Sri Lanka e Filipinas)
Viver, em vez de ir vivendo
«É feio ver um jovem estático, que vive, mas vive como um vegetal. Dão-me muita tristeza ao coração os jovens que vão para a reforma aos 20 anos! Sim, envelheceram cedo... Viver, não ir vivendo!» (21/6/2015, viagem a Turim)
Sonhai grandes coisas
«Sonhai grandes coisas. Sonhai que convosco o mundo pode ser diferente. Se vós derdes o melhor de nós mesmos estais a ajudar o mundo a ser diferente. Não esquecer, sonhar. (...) As pessoas têm dois olhos, um de carne e um de vidro. Com o olho de carne vemos aquilo que olhamos. Com o olho de vidro vemos aquilo que sonhamos.» (20/9/2015, viagem a Cuba)
Aprendamos a chorar
«Convido cada um de vós a perguntar-se: Aprendi eu a chorar? Quando vejo uma criança faminta, uma criança drogada pela estrada, uma criança sem casa, uma criança abandonada, uma criança abusada, uma criança usada como escravo pela sociedade? Oh! O meu não passa do pranto caprichoso de quem chora porque quereria ter mais alguma coisa? Esta é a primeira coisa que vos queria dizer: aprendamos a chorar.» (18/1/2015, viagem ao Sri Lanka e Filipinas)
Sede castos, sede castos
«E a vós jovens deste mundo, deste mundo hedonista, neste mundo onde só o prazer é publicitado, passar bem, levar uma vida descontraída, eu digo-vos: sede castos, sede castos.» (21/6/2015, viagem a Turim)
É preciso andar contracorrente
«Não queremos jovens "fracotes", jovens estão por ai e nada mais, nem sim nem não. Não queremos jovens que se cansam rápido e que vivem cansados, com cara de tédio. Queremos jovens fortes. Queremos jovens com esperança e fortaleza. Porquê? Porque conhecem Jesus, porque conhecem Deus. Porque têm um coração livre. Solidariedade.
Trabalho. Esperança. Esforço. Conhecer Jesus. Conhecer a Deus, minha fortaleza. Um jovem que viva assim, tem cara de tédio? Tens um coração triste? Esse é o caminho!
Mas para isso, é preciso sacrifício, é preciso ir contracorrente.
As bem-aventuranças, que lemos há pouco, são o plano de Jesus para nós. O plano é um plano contracorrente. Jesus diz-lhes: "Felizes os que têm alma de pobre". Não diz: "Felizes os ricos, que acumulam dinheiro". Não. Aqueles que têm a alma de pobre, que são capazes de aproximar-se e entender o que é um pobre. Jesus não diz: "Felizes aqueles que gozam da vida", mas diz "felizes aqueles que têm capacidade de afligir-se com a dor dos outros".» (12/7/2015, viagen ao Equador, Bolívia e Paraguai)
Quem não arrisca não caminha
«Já repeti muitas vezes: arrisca! Arrisca. Quem não arrisca não caminha. "Mas se eu errar?" Bendito o Senhor. Errarás mas se permaneceres parado, parada: este é o erro, o erro terrível, o fechamento. Arrisca. Tenta ideais nobres, sujando as mãos, arrisca como fez aquele samaritano da parábola.
Quando estamos mais ou menos tranquilos na vida, há sempre a tentação da paralisia. Não arriscamos: estamos tranquilos, quietos (...).
Aproxima-te dos problemas, sai de ti mesmo e arrisca, arrisca. Caso contrário a tua vida lentamente tornar-se-á paralisada; feliz, contente, com a família mas estacionada — para usar a tua palavra. É muito triste ver vidas estacionadas; é muito triste ver pessoas que parecem mais múmias de museu que seres vivos. Arrisca! Arrisca.» (Encontro em Villa Nazareth, 18/6/2016)
O Papa João Paulo II, começou por dizer aos jovens que “Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo!”. E acrescentou que “A Igreja os vê com confiança e espera que sejam o povo das bem-aventuranças! “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 13-14). Esta mensagem deu animo ao jovens quando acrescentou: “Queridos jovens, só Jesus conhece vosso coração, vossos desejos mais profundos.
Só Ele, quem os amou até a morte, é capaz de saciar vossas aspirações. Suas palavras de vida eterna, palavras que dão sentido à vida. Ninguém fora de Cristo poderá dar-vos a verdadeira felicidade.”
Depois, concluiu que “A humanidade necessita imperiosamente do testemunho de jovens livres e valentes, que se atrevam a caminhar contra a corrente e a proclamar com força e entusiasmo a própria Fé em Deus, Senhor e Salvador.”, já que “Jesus não é uma ideia, um sentimento, uma recordação! Jesus é uma «pessoa”, sempre viva e presente connosco!” e concluiu dizendo “Como são diferentes os jovens de hoje em relação aos de há vinte anos! Como mudou o contexto cultural e social no qual vivemos! Mas Cristo não, Ele não mudou! Ele é o Redentor do homem ontem, hoje e sempre!”
Este Papa procurou estar sempre próximo dos jovens, como nunca tinha havido um papa assim: “Não temam responder generosamente ao chamado do Senhor.
Deixem que sua fé brilhe no mundo, que suas ações mostrem seu compromisso com a mensagem salvadora do Evangelho!” frisou sempre: “Jovens não tenhais medo de ser santos!”. “Caríssimos jovens, viver o Evangelho é sem dúvida uma tarefa exigente, mas só com Cristo é possível edificar de maneira eficaz a civilização do amor”.
«Os jovens, a fé e o discernimento vocacional» é o tema proposto para a 15ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos marcada para outubro de 2018, que nasce da solicitude pastoral da Igreja manifestada especialmente desde a 14ª Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos. A importância dada ao acompanhamento dos jovens é, já, um dos traços da fecundidade da reflexão sobre a situação da família, condensada no programa pastoral que constitui a Amoris Laetitia, e tem como objetivo: acompanhar os jovens no seu caminho existencial para a maturidade, de forma que, através de um processo de discernimento, possam descobrir o seu projeto de vida e realizá-lo com alegria, abrindo-se ao encontro com Deus e com os homens e participando ativamente na edificação da Igreja e da sociedade.
A surpresa deste tema – mesmo que tenha sido fruto de uma consulta do Santo Padre às Conferências Episcopais, às Igrejas Orientais Católicas e à União dos Superiores Gerais –, remete-nos certamente para aquele ícone que nos acompanhou na vivência do Ano Santo da Misericórdia, entre estas duas assembleias gerais do Sínodo dos Bispos, imaginando o Sumo Pontífice naquela imagem com um dos olhos postos nas urgências da resposta às diversas situações da família e o outro cruzado na emergência de acompanhar aqueles jovens que, nas periferias da existência terrena, vivem hoje uma travessia não menos dramática que a própria situação da família.
Este olhar não é estático ou meramente reflexivo, desde fora, mas dá certezas de estar imerso na experiência do encontro com os jovens, de que a Jornada Mundial da Juventude é um dos mais expressivos exemplos. Isto leva-nos a suspeitar que, diante da multidão dos jovens representada naqueles que se deslocaram a Cracóvia 2016, a compaixão do Papa seja a mesma que a de Jesus ao contemplá-la como “ovelhas sem pastor” (cf. Mt 9, 36). Providencialmente, já em 2015, os bispos portugueses foram alertados, pela perspicácia deste olhar misericordioso, para os jovens “em debandada”, motivados a sentir esta porção da “messe grande” como que a precisar de trabalhadores (cf. Mt 9, 37). Naquela ocasião, a convicção do Sumo Pontífice já se revelava como profecia: a Igreja em Portugal precisa de jovens capazes de dar resposta a Deus que os chama, para que volte a haver famílias cristãs estáveis e fecundas, consagrados e consagradas e sacerdotes imolados com Cristo pelos seus irmãos e irmãs.
A reação a esta forma de colocar a questão sobre a realidade dos jovens, à qual se pede resposta pastoral, foi múltipla como, aliás, é amplamente plural, no conjunto das nossas dioceses dentro deste pequeno espaço nacional, a oferta de caminhos para o acompanhamento dos jovens. No entanto, fugindo a qualquer tipo de pretensiosismo ou à mera generalização, não posso esconder que observo – no meio de alguma confusão pastoral neste âmbito – subjazer a verdadeira realidade dos jovens por detrás da aparência que se pretende servir, cuja globalidade não pode ser totalmente tocada pela partícula que é cada um dos setores ou movimentos da Igreja identificados com o carisma de acompanhar os jovens. Esta humilde constatação liga-se diretamente com a convicção de que o processo da fé e do discernimento vocacional de cada jovem só pode resultar de uma manifesta unanimidade das instituições que constituem a Igreja a seu respeito. Na verdade, já na sociedade onde eles procuram a sobrevivência humana e profissional, são, muitas vezes, obrigados a confrontar-se com muitas contradições sem nexo, que só pode mantê-los em suspenso. A reflexão sobre a unidade e a diversidade entre a dimensão hierárquica e carismática da Igreja, recentemente emanada por uma das Congregações Pontifícias, não deve estar fora da intenção do Santo Padre de nos levar a fazer um exame de consciência nesta matéria.
Entretanto, o Papa Francisco, com a sua capacidade de se fazer próximo, fez acompanhar o documento preparatório deste próximo sínodo com uma Carta endereçada aos jovens (13.01.2017), na qual especificamente os convida a estar «em saída», não no sentido de «debandada», mas no sentido de uma busca de vida plena, a partir da amizade com Jesus, uma vez que garantidamente o mundo não será melhor sem eles.
O documento preparatório para este próximo Sínodo mete-nos – aos jovens e a quem se aproxima do seu caminho – «nos passos do discípulo amado». É nesta condição de uma experiência do amor divino como “dado de facto” que a Igreja os convida a caminhar para a “aquisição do ideal”. A partir daqui, a Igreja faz-nos revisitar a realidade atual da condição juvenil para, depois, tentar a presentar a “gramática” do discernimento da vocação cristã em vista a introduzi-los na ação pastoral a partir de uma nova pedagogia. Mas este não é, ainda, o ponto de chegada. Senão não seria preciso um Sínodo! O documento, como foi praxe nas vésperas de outras Assembleias Plenárias, tem uma substanciosa, ainda que não fechada, proposta de questionário, que nos abre as portas a um poderoso “laboratório” onde os diversos organismos podem apresentar dados coletados da observação da condição juvenil e partilhar a interpretação dos mesmos.
Diante destes preliminares, concluo que esta é uma hora grande importância para a Igreja no mundo, não só porque se ousam criar novas pontes dentro do vasto “jardim” que é a experiência da família, mas também porque as futuras gerações necessitam que testemunhos jovens lhes façam chegar com renovada alegria a experiência da entrega à causa de Jesus que é a vida abundante para todos.
Os jovens serão capazes de se entregar por um Amor que sentem dar-se-lhes todo. E descobri-lo em Jesus Cristo depende também da unidade na Igreja.
Com o desenvolvimento das sociedades pós-industriais ou terciarizadas, a individualização ou segunda secularização torna-se o paradigma sociológico por excelência para enquadrar as transformações religiosas. As formas não institucionalizadas de religião vão ocupando o espaço das religiões tradicionais.
Esta revolução espiritual transfere a ênfase no transcendente para o indivíduo: a religião institucional decresce em benefício da espiritualidade subjetiva. Já Marcel Mauss argumentava pela crescente espiritualização e individualização das religiões. As religiões perdem tanto a sua tangibilidade como o seu cunho comunitário. O indivíduo torna-se agora o soberano do seu destino, afetando inevitavelmente a sua religiosidade.
A religiosidade juvenil atual caracteriza-se então pela primazia da felicidade individual e terrena, pela vontade de independência e de autonomia, pelo relativismo e pelo pragmatismo.
Primeiro: os jovens atuais não acreditam em salvações coletivas, mas somente na felicidade individual. Querem ser felizes aqui e
agora, não numa vida após a morte, abandonando ou reinterpretando a soteriologia [salvação] cristã. Segundo: querem julgar e escolher livremente entre os produtos religiosos
mais adequados para si, desenvolvendo "bricolage".
Terceiro: deixaram de acreditar no cristianismo como única verdade religiosa, uma vez que a religião se tornou escolha privada e a importância das religiões se tornou idêntica. Quarto: a verdade não vem da doutrina e da teoria, mas meramente da experiência pessoal, do que a religião fornece às vidas concretas.
A família é o fator essencial da socialização religiosa. Como instituição principal de educação religiosa, no seu seio a herança religiosa transmite-se de geração em geração como cadeia de memória. Porém, esta transmissão religiosa encontra-se ameaçada.
Primeiro: a tradição já não continua a sustentar a vida individual e coletiva. Segundo: as crenças são legitimadas não pela autoridade tradicional mas pela sua utilidade. Terceiro: as crenças não são recebidas passivamente mas são ativamente consumidas. Assim, as famílias são desafiadas hoje a conseguir ligar as experiências individuais aos conteúdos religiosos associados a determinada linhagem crente.
Para além destas alterações conjunturais, a mudança substancial da estrutura familiar contribui seguramente para quebrar os elos da cadeia. De facto, as pessoas casam-se menos, mais tarde e mais civilmente; as ruturas conjugais crescem; as crianças nascem progressivamente em menor quantidade e no seio de coabitações. Ou seja, a reprodução das linhagens crentes tradicionais, assentes em casamentos religiosos estáveis e em famílias alargadas, fica certamente comprometida com estas transformações em curso.
Às mudanças na família juntam-se as modificações no lazer. De facto, no lazer os jovens expressam-se na sua especificidade e diversidade, construindo a sua identidade sobre a experimentação afetiva, social e cultural. Durante as duas últimas décadas, estas experiências foram-se alterando paulatinamente: as afetivas assentando na expressão sexual, as sociais desligando-se da interação presencial e as culturais convertendo-se especialmente em formas de consumo.
A mudança nas experiências afetivas implicou uma mutação ontológica importante. A passagem da conceção cristã de pessoa como ser unitário de corpo e alma à conceção dualista de objeto como exterior à pessoa. Esta transição levou os jovens, mais permeáveis à novidade, a desautorizar quaisquer intromissões relativas ao seu corpo, agora seu objeto pessoal. Certamente esta mudança foi acelerada e desenvolvida com o regime democrático, pela liberdade e igualdade inerentes. Primeiro: a TV, o cinema, a música, a internet, a publicidade difundem uma cultura erotizada. Segundo: a inserção das mulheres no mercado de trabalho liberta os filhos da tutela materna, oferecendo-lhes oportunidades experienciais. Terceiro: a disseminação da contraceção diminui o risco de gravidezes indesejadas.
As tecnologias de informação e comunicação (TIC) revolucionaram a forma como as pessoas se relacionam. Enquanto no princípio dos anos 1990 o computador, a internet e o telemóvel surgiam em Portugal, passados vinte anos todos os jovens os usufruem. Embora as TIC sirvam para aproximar e para reforçar laços, possibilitam também o afastamento, o isolamento das pessoas, a existência de vidas centradas na virtualidade e não na realidade, assim como a fragmentação das histórias pessoais. Como defende Zygmunt Bauman, as relações pós-modernas são fragmentárias, inconsequentes, pequenas e sem obrigações mútuas, cortando o envolvimento interpessoal.
As experiências culturais são crescentemente pautadas pelo consumo. Por um lado, a procura expandiu-se com o alargamento do poder de compra da classe média. Por outro lado, a oferta dilatou-se não só pelo estímulo da vontade de consumo e pela extensão dos pontos de retalho, como também pela oferta de mais produtos e serviços a preços atrativos.
O consumo fornece aos jovens identidade, autonomia e relação, muito expressivas nas saídas noturnas. Com a quantidade e a diversidade de oferta aumentada nas duas últimas décadas, os jovens frequentam espaços profundamente marcados pelo consumo (de música e de álcool, pelo menos), que lhes confirmam ou fornecem identidade e onde podem livremente expressar-se e relacionar-se. Como defende Gilles Lipovetsky, os princípios do hiperconsumo invadem a alma religiosa: transitoriedade, liberdade de pertença comunitária e de escolha de comportamentos, primazia do bem-estar subjetivo e da experiência emocional.
A figura 1 apresenta os resultados das crenças católicas. Em 1990, as crenças mais importantes foram "pecado" (47%) e "Deus pessoal", seguidos de "céu", "vida após a morte" e "inferno" (14%), com uma amplitude de 33%. Todas as crenças cresceram (pelo menos +9%), principalmente "vida após a morte" (+ 24%) e "inferno" (+22%).
Assim, em 2008, "vida após a morte" e "céu" trocaram as suas posições e a amplitude desceu para 24% (pecado - 60%, inferno - 36%).
A figura 2 mostra os resultados das práticas católicas e das atitudes. Cerca de 50% mantiveram os seus momentos de oração/meditação de uma ronda para outra, enquanto a frequência de serviços religiosos baixou 10% para 16%. Em 1990, homossexualidade era o aspeto mais rejeitado, seguida por eutanásia e aborto. Em 2008, tiveram valores próximos: homossexualidade desceu significativamente (32%), enquanto eutanásia diminuiu 16% e aborto aumentou 2%. Relativamente às crenças não católicas, reincarnação passou de 17% para 35% e espírito ou força vital de 20% para 25%.
Porque é que a crença no pecado e no Deus pessoal é maior e no inferno é menor? Porque é que todas as crenças aumentaram, principalmente no inferno e na vida após a morte? Para ambas as questões, o desenvolvimento da individualização induz a reinterpretação heterodoxa das crenças ortodoxas ao sabor das necessidades individuais. Contudo, destacam-se crenças mais facilmente reformuladas em forma heterodoxa, como são eventualmente o pecado e o Deus pessoal. O crescimento maior da crença no inferno e na vida após a morte pode resultar dos seus valores significativamente mais baixos em 1990, tendo assim mais espaço para subir.
Para eles, a oração reflete a responsabilidade e o desenvolvimento individual para controlar o futuro e ultrapassar fraquezas, sem intermediários ou autoridade, sem pecado ou punição. A sua flexibilidade e acessibilidade (qualquer pessoa pode aplicá-la em qualquer lugar e tempo) vão ao encontro da individualização.
Porque é que a recusa da eutanásia e principalmente da homossexualidade baixou, enquanto do aborto manteve o seu valor? Primeiro: qualquer tipo de autoridade, nomeadamente autoridade eclesiástica, é mal recebido pela juventude. Eles gostam de opinar sem se prenderem a laços externos, porque se consideram fonte principal das suas regras. Quando se lançam fora da Igreja, provavelmente seguem mais as suas próprias regras. Segundo: TV e cinema ajudaram possivelmente a propagar um ambiente recetivo à eutanásia e homossexualidade. Figuras públicas, estrelas de TV ou de música assumindo a sua condição homossexual, assim como a educação sexual nas escolas, provavelmente encorajaram a aceitação da homossexualidade. Terceiro: possivelmente o aborto poderia não descer mais, enquanto os outros indicadores baixaram até ao valor deste. Talvez as três atitudes tenham alcançado o mínimo valor possível, relativo aos católicos convictos.
Porque é que a crença no espírito ou força vital e na reincarnação aumentaram e principalmente esta última? Com a disseminação das TIC, o mercado espiritual expandiu-se, permitindo a escolha livre e ampla dos produtos religiosos. Jogos, filmes, séries de TV e telenovelas estão provavelmente a estimular esta mudança. Também doutrinas da Nova Era e do budismo espalham crenças no sagrado imanente e não transcendente, assim como nos ciclos cármicos. Assim, talvez ambos os indicadores interessem a juventude, competindo com a ressurreição e o Deus pessoal. A força maior da reincarnação resulta porventura da ideia de permanência infinita da alma neste mundo, numa eterna viagem cíclica, o que vai ao encontro da conceção atual da eterna juventude em que a morte foi morta.
Por último, a família apresenta-se como fator chave na interpretação destas alterações. Fonte capital de religião, Igreja doméstica, a família tem papel determinante.
As famílias tradicionais vão diminuindo, dando lugar a tipos conjugais diversos, gradualmente mais pequenos, assentes no casamento civil ou na coabitação e marcados por ruturas.
Os estudos apontam para que a probabilidade de os filhos de casais mais religiosos, portanto inseridos em famílias tradicionais, serem mais religiosos seja maior.
Conjeturo ainda que a quebra do número de crianças com o crescimento da riqueza e o decréscimo da autoridade parental diminuiu a religiosidade juvenil.
Os miúdos, mais protegidos mas mais livres nas suas vidas, têm menos capacidade para o sacrifício, para a responsabilidade, para o compromisso, pelo que não só são mais impacientes para desempenhar práticas religiosas repetitivas, mas também seguem as suas próprias regras e acreditam no que lhes apraz.
Entre 1990 e 2008, os jovens portugueses passaram a acreditar mais, tanto em crenças ortodoxas como heterodoxas, a praticar e a seguir menos as normas católicas. Estas conclusões limitam-se, contudo, ao período em análise, período máximo disponível. Esta ressalva é abreviada pela qualidade do EVS, certamente a base de dados internacional com indicadores mais interessantes sobre religião. Desta forma, espera-se que os dados reflitam com fiabilidade a realidade estudada.
De facto, como defende Grace Davie, respeitada socióloga da religião, as práticas decrescerão, enquanto as crenças manterão a sua presença, embora crescentemente pessoais, heterogéneas e demarcadas da instituição religiosa, principalmente entre os jovens.
Estas alterações religiosas advêm também das mutações na família e no lazer, como tentei desenvolver neste artigo. Mudanças na estrutura e no papel da família como transmissora religiosa explicam possivelmente a evolução religiosa em todos os seus três tipos de indicadores.
Mudanças no lazer (sexualidade, TIC e consumo) explicam porventura a descida da assistência à missa e do seguimento das normas católicas, e o crescimento das recomposições religiosas, principalmente através das TIC. Em suma, a individualização é traço principal da nossa modernidade, como é reconhecido por vários autores.
José Pereira Coutinho
Doutor em Sociologia, ISCTE
In "Brotéria", fevereiro 2014
Na tentativa de (me) responder fiz grupos: crianças, jovens, adultos e avós. É uma divisão pouco justa porque, de facto, não se ajusta. Não se pode dividir a juventude, porque é eterna enquanto dura e gosta de durar.
Vejo, num palco, os grupos alinhados em fila. Destaco o da juventude. Aponto-lhe o foco. Olho cada jovem que nele se movimenta, todos sob a mesma luz. Rostos de todos os feitios, sonhos de todos os tamanhos, angústias escondidas, outras transformadas, espaços vazios, outros cheios, a transbordar! Uns vão apressados, se preciso voltam atrás, e de novo retomam o passo! E o espírito que os inunda? Criativo, alegre, inesgotável, e uma esperança que não se esvai! Outros, grandes pensadores, ligaram o achómetro e estão por ali, sentados a achar coisas e a discuti-las no Whatsapp. Querem mudar o mundo, que acusam de atrasado.
Não os conseguiu acompanhar, o mundo. Despercebidos, ocupam os lugares de trás, dois ou três mais calados. Pouco falam e, se o fazem, atrapalham-se. Almas escondidas atrás de rostos tímidos que querem ser descobertas.
Os estudiosos ao canto, discretos, interessados, namoram os livros, e gostam genuinamente de ali estar. Perto, há quem procure o silêncio. Buscam a verdade, o bem, a consciência, pensam no sentido da vida e tentam entrar no sentido que ela tem. Há uma mística que os inunda. Fitam o céu, entregues ao infinito, tentando perceber de que é feito o Homem, e que sede é esta de amor, que nos move. No fim, resta-lhes a confortável certeza daquilo que não podem mudar.
Quem faz a juventude? Nós todos.
Dos quatro grandes grupos, somos o que mais erra, talvez. Mas conhecemos bem a graça de recomeçar! Queremos mais! Até aquele que, curvado o dia inteiro, dá ao polegar no ecrã azul do Facebook, à procura, também ele, de qualquer coisa...Anda, vai lá e mostra-lhe que pode não ser ali. Experimentamos as relações, umas desconcertadas, temos pressa.
Às vezes, enganamo-nos. Construímos fotografias do nosso futuro que temos medo de rasgar...É difícil desconstruí-las e parar para olhar o mundo e o que ele pede; é preciso esquecer essa promessa de sucesso de um futuro que nos aprisiona sobre nós próprios. Mas vejo tantos com coragem de se entregar! Sim, também conhecemos o empenho, o compromisso.
E estudamos! Num país onde nem tudo está bem, vejo jovens interessados, prontos a participar nele. E é verdade que ainda há muitos erros e espaços vazios que nos ocupam de nada... mas que bom que é! Que bom que é haver tanto espaço vazio que Deus ainda vem encher e onde Deus ainda pode criar.
Beatriz Ferreira
Os jovens, “o grupo mais delicado e valioso da sociedade humana” (MB II), foram o campo de apostolado indicado pela Divina Providência a Dom Bosco e continuam a ser hoje a razão de ser de todos aqueles que, na Igreja, são chamados a ser sinais e portadores do amor de Deus especialmente aos jovens mais pobres e em risco.
Dom Bosco nunca esqueceu o sonho dos 9 anos, aquele que deu o mote a toda a sua obra. No entanto, o campo juvenil foi uma descoberta progressiva. O jovem João Bosco, recém-ordenado sacerdote, interroga-se sobre o plano de Deus para a sua vida.
Como homem profundamente do seu tempo deixa-se questionar pela realidade que o envolve e descobre nela o chamamento de Deus. Para ele, os jovens foram a “terra prometida”, o cumprimento da promessa de Deus feita no sonho dos nove anos.
Dom Bosco não se contentou em oferecer pão, instrução e perspetivas de um futuro melhor aos jovens com os quais trabalhava.
O seu projeto educativo foi alavanca no tecido social daquele tempo a fim de mudar as estruturas injustas existentes. Fundou presenças com capacidade transformadora que se converteram em casa, escola e paróquia dos que mais precisavam.
O santo dos jovens não concretizou apenas uma ação paliativa na juventude, provocou uma mudança cultural no mundo juvenil que ainda hoje compromete muitas pessoas identificadas com a sua missão.
João Fialho
Conversar diariamente com Deus, ler a Bíblia, ir à Missa aos Domingos, contar as alegrias e penas a Cristo, dar exemplo ou ser útil aos outros: são alguns dos conselhos que o Papa dá aos jovens.
1. Conversar com Deus
“Algum de vós poderia talvez identificar-se com a descrição que Edith Stein fez da sua própria adolescência, ela, que viveu depois no Carmelo de Colônia: "Tinha perdido consciente e deliberadamente o costume de rezar". Durante estes dias podereis recuperar a experiência vibrante da oração como diálogo com Deus, porque sabemos que nos ama e, a quem, por sua vez, queremos amar”.
2. Contar-lhe as penas e alegrias
“Abri o vosso coração a Deus. Deixai-vos surpreender por Cristo. Dai-lhe o "direito de vos falar" durante estes dias. Abri as portas da vossa liberdade ao seu amor misericordioso. Apresentai as vossas alegrias e as vossas penas a Cristo, deixando que ele ilumine com a sua luz a vossa mente e toque com a sua graça o vosso coração.
3. Não desconfiar de Cristo
“Queridos jovens, a felicidade que buscais, a felicidade que tendes o direito de saborear, tem um nome, um rosto: o de Jesus de Nazaré, oculto na Eucaristia. Só ele dá plenitude de vida à humanidade. Dizei, com Maria, o vosso "sim" ao Deus que quer entregar-se a vós. Repito-vos hoje o que disse no princípio de meu pontificado: ‘Quem deixa entrar Cristo na sua vida não perde nada, nada, absolutamente nada do que faz a vida livre, bela e grande. ¡Não! Só com esta amizade se abrem de par em par as portas da vida. Só com esta amizade se abrem realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só com esta amizade experimentamos o que é belo e o que nos liberta’. Estai plenamente convencidos: Cristo não tira nada do que há de formoso e grande em vós, mas leva tudo à perfeição para a glória de Deus, a felicidade dos homens e a salvação do mundo”.
4. Estar alegres: querer ser santos
“Para além das vocações de consagração especial, está a vocação própria de todo o batizado: também é esta uma vocação que aponta para um ‘alto grau’ da vida cristã ordinária, expressa na santidade. Quando encontramos Jesus e acolhemos o seu Evangelho, a vida muda e somos impelidos a comunicar aos outros a experiência própria (...). A Igreja necessita de santos. Todos estamos chamados à santidade, e só os santos podem renovar a humanidade. Convido-vos a que vos esforceis nestes dias por servir sem reservas a Cristo, custe o que custar. O encontro com Jesus Cristo vos permitirá apreciar interiormente a alegria da sua presença viva e vivificante, para testemunhá-la depois no vosso ambiente”.
5. Deus: tema de conversa com os amigos
“São tantos os nossos companheiros que ainda não conhecem o amor de Deus, ou procuram encher o coração com sucedâneos insignificantes. Portanto, é urgente ser testemunhos do amor que se contempla em Cristo. Queridos jovens, a Igreja necessita autênticos testemunhos para a nova evangelização: homens e mulheres cuja vida tenha sido transformada pelo encontro com Jesus; homens e mulheres capazes de comunicar esta experiência aos outros”.
6. No Domingo, ir à Missa
Não vos deixeis dissuadir de participar na Eucaristia dominical e ajudai também os outros a descobri-la. Certamente, para que dela emane a alegria que necessitamos, devemos aprender a compreendê-la cada vez mais profundamente, devemos aprender a amá-la. Comprometamo-nos com isso, vale a pena! Descubramos a íntima riqueza da liturgia da Igreja e a sua verdadeira grandeza: não somos os que fazemos uma festa para nós, mas, pelo contrário, é o próprio Deus vivo que prepara uma festa para nós. Com o amor à Eucaristia redescobrireis também o sacramento da Reconciliação, no qual a bondade misericordiosa de Deus permite sempre que a nossa vida comece novamente.
7. Demonstrar que Deus não é triste
Quem descobriu Cristo deve levar os outros para ele. Uma grande alegria não se pode guardar para si mesmo. É necessário transmiti-la. Em numerosas partes do mundo existe hoje um estranho esquecimento de Deus. Parece que tudo anda igualmente sem ele. Mas ao mesmo tempo existe também um sentimento de frustração, de insatisfação de tudo e de todos. Dá vontade de exclamar: Não é possível que a vida seja assim! Verdadeiramente não.
8. Conhecer a fé
Ajudai os homens a descobrir a verdadeira estrela que nos indica o caminho: Jesus Cristo. Tratemos, nós mesmos, de conhecê-lo cada vez melhor para poder conduzir também os outros, de modo convincente, a ele. Por isso é tão importante o amor à Sagrada Escritura e, em consequência, conhecer a fé da Igreja que nos mostra o sentido da Escritura.
9. Ajudar: ser útil
Se pensarmos e vivermos inseridos na comunhão com Cristo, os nossos olhos se abrem. Não nos conformaremos mais em viver preocupados somente conosco mesmo, mas veremos como e onde somos necessários. Vivendo e atuando assim dar-nos-emos conta rapidamente que é muito mais belo ser úteis e estar à disposição dos outros do que preocupar-nos somente com as comodidades que nos são oferecidas. Eu sei que vós, como jovens, aspirais a coisas grandes, que quereis comprometer-vos com um mundo melhor. Demonstrai-o aos homens, demonstrai-o ao mundo, que espera exatamente este testemunho dos discípulos de Jesus Cristo. Um mundo que, sobretudo mediante o vosso amor, poderá descobrir a estrela que seguimos como crentes.
10. Ler a Bíblia
O segredo para ter um "coração que entenda" é edificar um coração capaz de escutar. Isto é possível meditando sem cessar a palavra de Deus e permanecendo enraizados nela, mediante o esforço de conhecê-la sempre melhor. Queridos jovens, exorto-vos a adquirir intimidade com a Bíblia, a tê-la à mão, para que seja para vós como uma bússola que indica o caminho a seguir. Lendo-a, aprendereis a conhecer Cristo. São Jerónimo observa a este respeito: "O desconhecimento das Escrituras é o desconhecimento de Cristo".
Caríssimos jovens!
É-me grato anunciar-vos que em outubro de 2018 se celebrará o Sínodo dos Bispos sobre o tema «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional». Eu quis que vós estivésseis no centro da atenção, porque vos trago no coração. Exatamente hoje é apresentado o Documento preparatório, que confio também a vós como «bússola» ao longo deste caminho.
Vêm-me à mente as palavras que Deus dirigiu a Abraão: «Sai da tua terra, deixa a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrar!» (Gn 12, 1). Hoje estas palavras são dirigidas também a vós: são palavras de um Pai que vos convida a «sair» a fim de vos lançardes em direção de um futuro desconhecido, mas portador de realizações seguras, ao encontro do qual Ele mesmo vos acompanha. Convido-vos a ouvir a voz de Deus que ressoa nos vossos corações através do sopro do Espírito Santo.
Quando Deus disse a Abraão «Sai!», o que é que lhe queria dizer? Certamente, não para fugir dos seus, nem do mundo. O seu foi um convite forte, uma provocação, a fim de que deixasse tudo e partisse para uma nova terra. Qual é para nós hoje esta nova terra, a não ser uma sociedade mais justa e fraterna, à qual vós aspirais profundamente e que desejais construir até às periferias do mundo?
Mas hoje, infelizmente, o «Sai!» adquire até um significado diferente. O da prevaricação, da injustiça e da guerra. Muitos de vós, jovens, estais submetidos à chantagem da violência e sois forçados a fugir da vossa terra natal. O vosso clamor sobe até Deus, como aquele de Israel, escravo da opressão do Faraó (cf. Ex 2, 23).
Desejo recordar-vos também as palavras que certo dia Jesus dirigiu aos discípulos, que lhe perguntavam: «Rabi, onde moras?». Ele respondeu: «Vinde e vede!» (cf. Jo 1, 38-39). Jesus dirige o seu olhar também a vós, convidando-vos a caminhar com Ele. Caríssimos jovens, encontrastes este olhar? Ouvistes esta voz? Sentistes este impulso a pôr-vos a caminho? Estou convicto de que, não obstante a confusão e o atordoamento darem a impressão de reinar no mundo, este apelo continua a ressoar no vosso espírito para o abrir à alegria completa. Isto será possível na medida em que, mesmo através do acompanhamento de guias especializados, souberdes empreender um itinerário de discernimento para descobrir o projeto de Deus na vossa vida. Mesmo quando o vosso caminho estiver marcado pela precariedade e pela queda, Deus rico de misericórdia estende a sua mão para vos erguer.
Na abertura da última Jornada Mundial da Juventude, em Cracóvia, perguntei-vos várias vezes: «As coisas podem mudar?». E juntos, vós gritastes um «Sim!» retumbante. Aquele brado nasce do vosso jovem coração, que não suporta a injustiça e não pode submeter-se à cultura do descartável, nem ceder à globalização da indiferença. Escutai aquele clamor que provém do vosso íntimo! Mesmo quando sentirdes, como o profeta Jeremias, a inexperiência da vossa jovem idade, Deus encoraja-vos a ir para onde Ele vos envia: «Não deves ter medo [...] porque Eu estarei contigo para te libertar» (cf. Jr 1, 8).
Um mundo melhor constrói-se também graças a vós, ao vosso desejo de mudança e à vossa generosidade. Não tenhais medo de ouvir o Espírito que vos sugere escolhas audazes, não hesiteis quando a consciência vos pedir que arrisqueis para seguir o Mestre. Também a Igreja deseja colocar-se à escuta da vossa voz, da vossa sensibilidade, da vossa fé; até das vossas dúvidas e das vossas críticas. Fazei ouvir o vosso grito, deixai-o ressoar nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores. São Bento recomendava aos abades que, antes de cada decisão importante, consultassem também os jovens porque «muitas vezes é exatamente ao mais jovem que o Senhor revela a melhor solução» (Regra de São Bento III, 3).
Assim, através do caminho deste Sínodo, eu e os meus irmãos Bispos queremos, ainda mais, «contribuir para a vossa alegria» (2 Cor 1, 24). Confio-vos a Maria de Nazaré, uma jovem como vós, à qual Deus dirigiu o seu olhar amoroso, a fim de que vos tome pela mão e vos guie para a alegria de um «Eis-me!» pleno e generoso (cf. Lc 1, 38).
Com afeto paterno,
Francisco
No inicio do ano civil de 2017 o Vaticano divulgou o documento para preparação da XV Assembleia Geral Ordinária que será desta vez dedicada à Pastoral dos Jovens. Este documento preparatório intituldado “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional” está dirigido a todos e conta especialmente de forma quase inaudita com a participação dos mesmos jovens para que apresentem propostas de resposta às interpelações diretas colocadas pelo documento.
Os chamados ‘lineamenta’ incluem um questionário próprio, com 30 perguntas sobre a relação entre jovens, Igreja e sociedade; o acompanhamento espiritual e vocacional dos mais novos, por parte dos responsáveis católicos; a pastoral juvenil vocacional; e um conjunto de questões específicas para os vários continentes. A publicação deste documento preparatório deu início a um processo de consulta que levará à redação do instrumento de trabalho para a assembleia sinodal.
A diocese da Guarda atempadamente fez a recolha das reflexões da recepção a este documento que agora são enviadas à Conferência Episcopal que delas fará eco ao Secretariado da Assembleia Geral do Sinodo. O Vaticano questionou os jovens e os responsáveis católicos sobre o descontentamento perante o atual sistema político, económico e social na Europa: “Como ouvem este potencial de protesto, para que se transforme em protesto e colaboração?”.
O texto fala numa geração “(híper)ligada”, para sublinhar que esta experiência de relacionamento através da tecnologia “estrutura a conceção do mundo, da realidade e das relações pessoais”. À Igreja, afirma o documento, compete ajudar os jovens a criar um itinerário “reflexivo” que os ajude na transição para a vida adulta num contexto de “fluidez e precariedade”.
O documento preparatório propõe uma reflexão em três partes, começando pelas dinâmicas sociais e culturais antes da passar à abordagem do “discernimento”, como instrumento que a Igreja oferece aos mais novos para a descoberta da sua vocação.
Em terceiro lugar, são colocados em relevo os elementos fundamentais da pastoral juvenil vocacional.
O Sínodo dos Bispos pode ser definido, em termos gerais, como uma assembleia consultiva de representantes dos episcopados católicos de todo o mundo, a que se juntam peritos e outros convidados, com a tarefa ajudar o Papa no governo da Igreja. Quem assim desejar poderá encontrar no site www.vatican.va este documento que merecerá uma profunda reflexão.
Pe. António Martins