«Quando numa família não somos invasores e pedimos “com licença”, quando na família não somos egoístas e aprendemos a dizer “obrigado”, e quando na família nos damos conta de que fizemos algo incorrecto e pedimos “desculpa”, nessa família existe paz e alegria.»
Os missionários sabem, por experiência, que o Evangelho do perdão e da misericórdia pode levar alegria e reconciliação, justiça e paz. O mandato do Evangelho – «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt 28, 19-20) – não terminou, antes pelo contrário impele-nos a todos, nos cenários presentes e desafios atuais, a sentir-nos chamados para uma renovada «saída» missionária, como indiquei na Exortação Apostólica Evangelii gaudium: «cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho» (n. 20).
“Sei que a minha missão e a de minhas irmãs representa uma gota no oceano. Mas sem essa gota, o oceano seria menor.”
Santa Teresa de Calcutá
A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las.
Santo Agostinho
“A Missão não se faz com a filosofia dos que discutem. Mas, com os pés dos que vão, com os joelhos dos que oram e com as mãos dos que contribuem”.
Suba o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo.
Martin Luther King
O Papa Francisco diz-nos que “precisamente neste Ano Jubilar, celebra o seu nonagésimo aniversário o Dia Mundial das Missões, promovido pela Pontifícia Obra da Propagação da Fé e aprovado pelo Papa Pio XI em 1926. Por isso, considero oportuno recordar as sábias indicações dos meus Predecessores, estabelecendo que fossem destinadas a esta Obra todas as ofertas que cada diocese, paróquia, comunidade religiosa, associação e movimento, de todo o mundo, pudessem recolher para socorrer as comunidades cristãs necessitadas de ajuda e revigorar o anúncio do Evangelho até aos últimos confins da terra. Também nos nossos dias, não nos subtraiamos a este gesto de comunhão eclesial missionário; não restrinjamos o coração às nossas preocupações particulares, mas alarguemo-lo aos horizontes da humanidade inteira”.
Em muitos lugares, a evangelização parte da atividade educativa, à qual o trabalho missionário dedica esforço e tempo, como o vinhateiro misericordioso do Evangelho (cf. Lc 13, 7-9; Jo 15, 1), com paciência para esperar os frutos depois de anos de lenta formação; geram-se assim pessoas capazes de evangelizar e fazer chegar o Evangelho onde ninguém esperaria vê-lo realizado. A Igreja pode ser definida «mãe», mesmo para aqueles que poderão um dia chegar à fé em Cristo.
O Papa Francisco aponta para uma atividade comum e frequente durante a celebração do Ano Santo: a peregrinação. O deslocamento feito pelos peregrinos, em busca de passar pela porta santa, deve ser o sinal de um deslocamento interior, do “velho” para o “novo homem”.
A peregrinação é um exercício que recorda e anima a percorrer um itinerário de conversão interior. “A peregrinação há-de servir de estímulo à conversão: ao atravessar a Porta Santa, deixar-nos-emos abraçar pela misericórdia de Deus e comprometer-nos-emos a ser misericordiosos com os outros como o Pai o é connosco.” (MV 14) Se quisermos, toda experiência missionária embebida na misericórdia poderá ser para nós uma peregrinação, um caminho de conversão, para sermos sinais vivos, cada um de nós, de uma Igreja missionária e misericordiosa.
Nesse sentido, o Papa aponta para um itinerário bem concreto, apoiado no Evangelho: “não julgueis e não sereis julgados, não condeneis e não sereis condenados, perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será colocada no vosso regaço...” (Lc 6, 37-38).
O caminho para uma mística missionária, aberta para a missão universal, passa pela conversão do coração: ser generoso como o próprio Pai foi generoso para connosco, “misericordiosos como o Pai”! E o caminho tem esses passos: não julgar, não condenar, perdoar e dar com generosidade. A generosidade da doação de si, isso é, efetivamente, a missão. (DAp 360)
Nem sempre conseguimos a coragem para não fugir. Não fugir implica enfrentar o que vier, abrir os olhos para o que não podemos controlar, fechar os olhos para a cobardia e abrir os braços para a ameaça. Fugir é sempre adiar um problema, uma decisão, e talvez a própria vida. Ainda assim, fugimos muitas vezes. Quando achávamos que podíamos dar tudo e ser fortes, fogem-nos os passos para o esconderijo de não pensar e não viver. Fugimos para não ver o que é necessário. Fugimos para que não doa. Fugimos para sobreviver. Talvez as fugas se possam justificar quando os dias se tornam insuportáveis e quando precisamos de um espaço onde caibam todas as nossas tempestades. Aquilo que me parece injustificável (e até perigoso) são as vezes que fugimos de nós mesmos. São as vezes que baixamos a cabeça porque não temos coragem de dizer que não acreditamos, que não queremos, que não deixamos.
Que não acreditamos nas verdades alheias, que não queremos ser aceites a todo o custo, que não deixamos que decidam por nós. Temos medo que os outros nos julguem e nos mordam as certezas com as suas conclusões sobre nós. Estamos dispostos a fugir daquilo que nos define e caracteriza para parecer bem. Para não desinstalar o que está arrumadinho. Para não chocar a sensibilidade alheia. Perdidos nesta tentativa de ser o que os outros esperam de nós, podemos perder-nos. Podemos cegar por dentro e seguir pela vida sem saber o caminho.
O que os outros esperam de nós pode ser poderoso. Mas não é necessário. Não é necessário que os outros nos sorriam sempre, nos amem sempre, nos queiram sempre. O que é realmente necessário e importante é que, independentemente do que querem de nós, sejamos exatamente o que somos e o que queremos ser.
A nossa alegria não depende da aprovação alheia. A nossa paz não se constrói com as opiniões dos outros. Quer isto dizer que não precisamos dos outros para coisa alguma? Não. Quer dizer que não precisamos de mudar absolutamente nada em nós para que os outros nos amem, caso seja essa a sua vontade. Quer isto dizer que não precisamos de mudar nada? Nunca mais? Não. Quer dizer que podemos sempre mudar em nós o que nos tornar mais pequenos e infelizes.
O que quero dizer hoje é que não precisas de fugir. Tudo aquilo que te faz ter vontade de fugir só se resolverá se ficares. E tudo aquilo que tens vontade de mudar em ti para agradar seja a quem for, é exatamente o que tens que deixar como está. Se queres mudar alguma coisa, muda de amigos. Os que o são não te pedem nada e ficam felizes por saber que não precisas de fugir deles.
Não fujas. Corre atrás do que te faz amanhecer por dentro. Mas não fujas.
Marta Arrais
É professora de Inglês e Espanhol (FCSH-UNL) e Cronista no iMission
Que bom encontrar-nos novamente ao redor da missão que Deus nos confia a cada um a partir do batismo. O sonho de chegar a todos, sem distinções socioculturais, rompendo fronteiras, construindo pontes, aproximando pessoas, é um desafio permanente e atual para todos nós.
Viver e celebrar a missão é proclamar continuamente a misericórdia e transformar a vida quotidiana num tempo de graça e de paz, impelidos por um desejo de conversão e um sentimento de alegria que contagie a todos: pequenos e grandes, próximos e afastados.
Não há fronteiras nem distâncias que possam impedir que a misericórdia do Pai nos alcance, tornando-se presente no meio de nós. É um enorme desafio que temos diante de nós. Sermos verdadeiros canais da misericórdia do Pai que, alcançando-nos, não nos deixa indiferentes, nos impulsiona a partir e a proclamar a Boa Notícia do Evangelho presente já no meio de nós.
Como Maria, a mulher cheia de graça (Lc 1,28), também nós somos chamados a receber o Salvador, o Deus connosco, para que encontre na nossa vida espaço e tempo para habitar e transformar os corações de pedra em carne (Ez 11,19) e possamos viver e construir com espírito novas relações de amor e ternura, de paz e solidariedade, proclamando a glória e a misericórdia, fruto da presença de Deus na vida e na história de cada um de nós e das
nossas comunidades.
Com Maria, caminhamos (Lc 1,39) ao encontro do Outro (Lc 1,40); iluminados pelo Espírito, a vida crescerá e será envolvida pela alegria do encontro, o calor do abraço terno e fraterno, a doçura da palavra partilhada, a beleza da mesa, onde todos podem sentar-se e sentir-se em casa.
Envolvidos no amor, testemunhas autênticas da sua presença, promotores da vida em todas as suas dimensões (Jo 10,10), sintamo-nos convocados para proclamar as maravilhas de Deus, com um coração agradecido, transbordando de amor e paixão pelo ser humano, alimentados pela esperança que se renova e recria continuamente na fidelidade ao projeto de Deus.
Na escola de Maria, iluminados pela presença de Deus, não tenhamos medo de abraçar a vida, principalmente a mais desprotegida e necessitada do Amor de Deus.
Por intercessão de Nossa Senhora de Fátima, peçamos a Deus a graça de sermos verdadeiros instrumentos do amor misericordioso de Deus, hoje e sempre, em cada encontro e em todo o lugar.
António Fernandes, Imc
Presidente dos IMAG - Institutos Missionários Ad Gentes
Para muitos, as Ilhas Salomão, são apenas um exótico destino de férias. Para os seus habitantes, apesar das águas cristalinas, das inúmeras ilhas de areia fina e vegetação tropical, as coisas não são assim tão fáceis. A começar pelo isolamento em que vivem. Para o Bispo Capelli, não há, porém, problema que não tenha solução…
Apesar da imagem magnífica que transpira em cada fotografia, a vida nas Ilhas Salomão não é nenhum mar de rosas. Pobreza, isolamento, fortes abalos sísmicos, além da diversidade cultural e linguística… tudo ajuda a transformar este país num lugar especial. Ao todo, na Diocese de Gizo, há mais de 40 ilhas espalhadas por 300 quilómetros, onde se fala mais de uma dezena de dialectos. Um verdadeiro quebra-cabeças. Como chegar a todas estas pessoas?
Ainda agora, por causa do Ano Santo da Misericórdia, foi necessário puxar pela imaginação para que todos pudessem experimentar o sentimento de perdão e reconciliação que se vive para quem atravessa a Porta Santa. Mas como fazê-lo, quando a maioria da população vive isolada em ilhas remotas do arquipélago e não consegue deslocar-se até à Catedral? A solução foi fácil: construindo uma porta itinerante que pudesse ser levada num pequeno barco. E assim tem sido. Graças à energia de Luciano Capelli e à coragem de um punhado de cristãos mais empenhados, lá se arranjou um barco de madeira, com um pequeno motor, para levar a Porta Santa a todos os habitantes das Ilhas Salomão.
Reconciliação e perdão
Um porta simples, com dois metros de altura, feita de madeira castanha clara, transportada num barco também ele de madeira, humilde, como os dos pescadores. Mas todas as vilas recebem a Porta Santa com uma cerimónia especial, com flores, danças, animais, costumes tradicionais... sem faltarem os guerreiros, com as suas faces pintadas e vestindo fatos feitos de flores secas, numa «atmosfera solene que transparecia em todos os momentos. Apesar da festa, os fiéis estavam sempre conscientes da solenidade do momento», garantiu o bispo salesiano.
A chegada da Porta Santa tem sido uma oportunidade, também, para a Igreja levar uma proposta de reconciliação e perdão às comunidades mais isoladas. “Estamos em lugares remotos”, afirma D. Luciano. “Aqui não há tribunais, nem juízes ou advogados…”, explica. Por isso, a chegada da Porta Santa a cada uma destas ilhas tem representado, também, um sentimento de partilha, de inclusão. De pertença à mesma comunidade.
A Fundação AIS tem ajudado, desde há anos, a igreja nas Ilhas Salmão e, em particular, a diocese de D. Luciano Capelli. Apesar dos seus 60 anos, nada parece demover este prelado. A Porta Santa foi um bom exemplo de como é possível fintar as dificuldades que a natureza coloca ao trabalho pastoral. Se as pessoas não podiam deslocar-se até à Catedral, levou-se a Porta Santa até elas. Mas as viagens de barco são muito demoradas. Como ultrapassar isso? De avião claro! Bom, bem vistas as coisas, um avião seria impraticável. Não haveria dinheiro para ele nem pistas onde pudesse aterrar.
E foi assim que se chegou a um minúsculo avião. O ultraligeiro da diocese é agora o meio de transporte preferido de D. Luciano Capelli. A necessidade aguça o engenho. Neste caso, tem ajudado a aproximar pessoas e a fazer comunidade entre os habitantes das Ilhas Salomão. E quando se escuta, ao longe, o ronronar da hélice do ultraligeiro, já se sabe que “o senhor bispo” está a chegar para mais uma visita…
Texto: Ricardo Perna (com Fundação AIS)
Fotos: Fundação AIS
“Como o Pai me enviou eu também vos envio” (Jo20, 21)
A misericórdia é o próprio coração (da missão) de Deus
Na Mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2016, “Igreja Missionária, testemunha da Misericórdia”, o Papa Francisco faz uma reflexão sobre a missão ad gentes como “imensa obra de misericórdia”. Dando traços ainda mais palpáveis ao que já havia sido proposto na Bula Misericordiae Vultus, ele fala do que significa a experiência da misericórdia divina a partir da Sagrada Escritura:
“É o Deus benigno, solícito, fiel; aproxima-se de quem passa necessidade para estar perto de todos, sobretudo dos pobres; envolve-se com ternura na realidade humana, tal como fariam um pai e uma mãe na vida dos seus filhos (cf. Jr 31,20). É ao ventre materno que alude o termo utilizado na Bíblia hebraica para dizer misericórdia: trata-se, pois, do amor duma mãe pelos filhos; filhos que ela amará sempre, em todas as circunstâncias suceda o que suceder, porque são filhos do seu ventre. (...) perante as suas fragilidades e infidelidades, o seu íntimo comove-se e estremece de compaixão (cf. Os 11, 8).”
Vemos como aqui transparece a imagem de Deus como Mãe extremosa de amor, como Pai que não deixa de se preocupar de seus filhos, pois são o fruto de sua própria carne. Assim, a misericórdia em Deus é mais do que uma condescendência para com os erros de seus filhos. As imagens empregadas pelo Papa recordam a dor que comove as entranhas e as vísceras do Pai e da Mãe que sofrem pela sorte de seus filhos. Antes de ser uma ideia, é uma comoção que se agita no mais íntimo de Deus, e que o move para sair em socorro dos filhos que por Ele clamam.
Assim, no coração da Trindade, encontramos o Mistério da Misericórdia Divina, da insondável maternidade de Deus, tão longe da nossa capacidade de entendimento. E, no entanto, como afirma o Papa Francisco, a misericórdia “é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa”, e que o assemelha profundamente ao próprio Deus, e por isso é também “caminho que une Deus e o homem”. (MV2) Dessa forma, podemos também dizer que a Missio Dei, a Missão de Deus, origem e fundamento de toda missão da Igreja, nasce desse mesmo impulso da misericórdia divina: “coração pulsante do Evangelho”. (MV 12)
Contemplar o Mistério da Misericórdia: o quotidiano da missão de Jesus
No Ano Santo da Misericórdia, somos convidados a contemplar esse Mistério que reside no coração da Trindade, na forma como ele se revelou para nós, na prática e nas palavras de Jesus de Nazaré. Ele é, de fato, o “rosto da misericórdia de Deus”. Acompanhando como Jesus realiza a missão que recebeu do Pai, podemos aprender como viver a nossa missão, como anúncio dessa misericórdia divina. Para tanto, podemos observar com atenção um dia na vida de Jesus, durante seu ministério na Galileia, ao anunciar o Reino de Deus, e ver o modo como Ele realiza sua missão.
Em Mc 1, 21-39, temos a descrição de um dia na missão de Jesus, desde a manhã até a noite. Vemos como participa de um encontro da comunidade, na sinagoga do povoado, e ali expulsa um espírito maligno que perturba a vida das pessoas. Depois, segue para uma visita à casa de Pedro, em que se aproxima e dá atenção à sua sogra, para curá-la, e também ser servido por ela. À tarde, dispensa longo tempo na acolhida de tantos doentes que o procuram, à frente da casa de Pedro. Ao anoitecer, procura um local e o momento adequado para seu encontro de oração na intimidade do Pai. Na madrugada, o povo continua a busca-lo, mas Jesus não se deixa prender, pois sua disponibilidade missionária continua a enviá-lo para o anúncio do Reino em todos os lugares.
Como tantas outras passagens bíblicas, que demonstram pelos atos e palavras de Jesus a ação da misericórdia de Deus, esse trecho ajuda a descobrir detalhes sobre como Jesus vivia sua missão no dia-a-dia. Podemos destacar sua completa disponibilidade para a missão que recebeu do Pai, não reservando tempo para si, mas sempre procurando o encontro com as pessoas, se aproximando principalmente dos que mais sofrem. É, de verdade, um ser para os outros. Essa disponibilidade significa também uma grande liberdade interior, um desprendimento e uma generosidade que encontra raízes em sua união com o Pai. Foi essa atitude de vida que conferiu “autoridade” às suas palavras, que não era como a “dos escribas”, dando credibilidade ao anúncio do Reino de Deus junto aos pobres e pecadores.
Assim, olhando como Jesus vivia sua missão podemos contemplar a própria misericórdia em ação. É observando Jesus que podemos compreender que “cada ensinamento da doutrina deve situar-se na atitude evangelizadora que desperte a adesão do coração com a proximidade, o amor e o testemunho”. (EG 42) Acompanhar Jesus significa aprender com ele a ser “manso e humilde” de coração, e como discípulos missionários participar dessa Missão de Deus: anunciar essa mesma mensagem de misericórdia assim como o Mestre a vivenciou.
Brasília, 06 de junho de 2016 Pe. Sidnei Marco Dornelas, CS
Comissão Episcopal para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial – CNBB