A família, bem decisivo para o futuro do mundo e da Igreja

Professor Juan Francisco Garcia Ambrósio 
O Professor Juan Francisco Garcia Ambrósio, nasceu a 22 de Agosto de 1962, em Valência de Alcántara, Cáceres, Espanha. É casado com a Cristina (economista) e pai do André e do Filipe. Licenciado e Mestre em Teologia (tese na área da Cristologia), pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. É membro do Conselho de Direção e investigador do Centro de Estudos de Religiões e Culturas da Universidade Católica Portuguesa. Exerce funções de Coordenação Pedagógica nos cursos de e-learning ministrados pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. É Docente da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (desde o ano 1991) onde tem lecionado em diversas áreas (destaca-se a área da Cristologia, da Sacramentologia, do Fenómeno Religioso e da Educação Moral e Religiosa Católica). É membro da direção do Instituto Diocesano da Formação Cristã do Patriarcado de Lisboa.

Foi assinada a 19 de março e tornada pública a 8 de abril de 2016 a Exortação Apostólica Pós-Sinodal «A alegria do amor». Com este texto o papa Francisco conclui um processo iniciado em finais de 2013, quando, para surpresa de muitos, enviou um questionário a todas as comunidades cristãs tendo por objetivo implementar uma dinâmica sinodal que seria pontuada por dois momentos fundamentais: A III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos e a XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos.

Eram 38 perguntas (com várias alíneas) com as quais o Papa pretendia ficar a conhecer melhor o sentir dos fieis (sensus fidelium) sobre esta temática tão importante e decisiva para a vida da Igreja e do mundo. As respostas não se fizeram esperar e foram chegando a Roma, de uma maneira generosa e entusiasta, vindas de todas as partes do mundo. A partir delas foi possível construir um texto que serviu de base para orientar os trabalhos que tiveram lugar na já referida III Assembleia Geral Extraordinária, que reuniu em Roma de 5 a 19 de outubro de 2014 para refletir sobre «Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização».

Desta Assembleia resultou um Relatório Final, que, juntamente com um outro conjunto de perguntas novamente dirigido a todos os cristãos, ajudou a preparar a XIV Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos, que reuniu em Roma de 4 a 25 de outubro de 2015, agora para refletir sobre «A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo». Também no fim dos trabalhos foi elaborado um Relatório Final que foi amplamente divulgado.
A partir de toda esta dinâmica é possível identificar algumas linhas de força das quais aponto, em seguida, apenas algumas. Primeiro fica claro o lugar de destaque que a família ocupa no pensamento de Francisco. Com efeito, nestes três anos do seu pontificado a família tem sido uma realidade sempre presente, destacando o papel fundamental que ela é chamada a desempenhar na renovação da Igreja e no cuidado da casa comum. Por outro lado, vê-se também a constante preocupação em ler e interpretar a realidade, ou seja, o Papa quer caminhar tendo em conta a realidade concreta da família, com as suas luzes e as suas sombras, fazendo o exercício - e convidam-nos simultaneamente a fazê-lo também - de ousar olhar para essa realidade a partir dos próprios olhos de Deus. A insistência com que tem falado do carinho, da ternura e da misericórdia de Deus, são disso testemunho inequívoco.

Mas se ficou claro o lugar fundamental que a família deve ocupar no Projeto de Deus para a humanidade, também ficaram claras algumas divisões e tensões no seio da comunidade cristã. É verdade que muitas vezes essas tensões foram empoladas e ampliadas por alguma comunicação social, tendo sido com frequência traduzidas, de um modo simplista, como uma divisão entre conservadores (apresentados como aqueles qua acham que nada deve mudar) e progressistas (apresentados como aqueles que pensam que tudo deve mudar), mas isso não nos deve impedir de reconhecer a sua existência.

Toda esta realidade é acolhida pelo Papa na Exortação «A alegria do amor» que é apresentada simultaneamente como um ponto de chegada e um ponto de partida. E com isto o Papa volta a surpreender ao afirmar explicitamente que:
"Recordando que o tempo é superior ao espaço, quero reiterar que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais. Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspetos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela. Assim há de acontecer até que o Espírito nos conduza à verdade completa (cf. Jo16, 13), isto é, quando nos introduzir perfeitamente no mistério de Cristo e pudermos ver tudo com o seu olhar. [...]." (Nº3)

O Papa não toma partido por nenhuma das duas tendências anteriormente referidas, nem sequer assume uma posição intermédia diplomática e conciliadora. Porventura escolhe o caminho mais difícil, e convida toda a Igreja a prosseguir numa dinâmica de discernimento para a qual aponta algumas balizas.
Devemos partir desta certeza inequívoca: "A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja. [...], o anúncio cristão sobre a família é verdadeiramente uma boa notícia" (nº 1). "O bem da família é decisivo para o futuro do mundo e da Igreja" (nº 31).

Por isso convida-nos a anunciar com toda a clareza e amplitude o projeto de Deus sobre a família, sem 'amaciar' nenhuma das suas exigências nem 'encurtar' o seu horizonte (cf cap I e III). Convida-nos igualmente a partir da realidade concreta que é poliédrica (cf nº4 e cap II). É certo que essa realidade não coincide com esse horizonte e, muitas vezes, está mesmo muito afastada dele, mas isso não nos deve imobilizar nem paralisar no caminho, pelo contrário, deve impulsionar-nos a procurá-lo de uma maneira criativa e ousada, sempre à luz da misericórdia divina, acompanhando, discernindo e integrando a fragilidade (cf. Cap VIII)


O Papa tem consciência das dificuldades, bem como do momento fundamental em que nos encontramos e por isso mesmo afirma:
"Devido à riqueza que os dois anos de reflexão do caminho sinodal ofereceram, esta Exortação aborda, com diferentes estilos, muitos e variados temas. isto explica a sua inevitável extensão. Por isso não aconselho uma leitura geral apressada. Poderá ser de maior proveito, tanto para as famílias como para os agentes de pastoral familiar, aprofundar pacientemente uma parte de cada vez ou procurar nela aquilo que precisarem em cada circunstância concreta. [...]" (n7)

Não é mesmo o caminho mais fácil. Muitos teriam preferido orientações muito mais definitivas e fechadas, mas o convite é para continuar a caminhar em conjunto, destacando a beleza do amor no matrimónio e na família (cf Cap IV e V), promovendo a sua espiritualidade (cf cap IX) e olhando de frente os desafios que se levantam (cf Cap VI, também VII).

Não tenhamos dúvidas, para o papa Francisco "as famílias não são um problema, são sobretudo uma oportunidade" (nº 7). E por isso, pode concluir:
"[...]. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! Aquilo que se nos promete é sempre mais. Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude do amor e comunhão que nos foi prometida." (nº 325)

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