O Pe. Valter Tiago Salcedas Duarte, nasceu a 04 de junho de 1981. Foi Ordenado a 08 de dezembro de 2008. Atualmente é Arcipreste de Alpedrinha e Pároco de Castelo Novo, Alpedrinha, Soalheira, Louriçal do Campo e Atalaia do Campo. É Capelão da Misericórdia de Alpedrinha e Diretor do Departamento Diocesano da Catequese da Infância e da Adolescência, bem como Assistente diocesano do CPM.O que é o CPM e quais os objetivos o CPM?
O CPM é um movimento de leigos, assistido por um sacerdote, que é proposto pela Igreja como um momento e um caminho de preparação para o Sacramento do Matrimónio, estando organizados a nível internacional, com especificidade diocesana e concretização arciprestal. Procura, através de uma metodologia própria, baseada na revisão de vida dos casais que fazem parte da equipa, no seu testemunho vivencial e no diálogo com os noivos, preparar o matrimónio destes, fazendo-os refletir sobre o seu namoro/noivado e confrontá-los com a validade dos seus projetos de vida, dos seus comportamentos pessoais, sociais e eclesiais.
Quem visa/pretende alcançar o CPM?
O movimento tem como objetivo chegar a todos aqueles que pretendem celebrar o seu matrimónio. Neste objetivo geral percebemos que, mediante a transformação permanente da sociedade e sendo esta nos nossos dias feita a uma velocidade alucinante, existe uma necessidade cada vez mais premente de chegar, de facto, aos noivos. Procurando despertar ou fazer renascer a fé, dialogando acerca das suas ideias e ajudando-os, a eles próprios, a dialogar entre si e sobretudo preparando-os para a necessária superação das dificuldades, fazendo-os sentir que a construção de um caminho a dois é uma empresa comum e comunitária, isto é, fazendo-os reconhecer a necessidade de, tendo o seu espaço pessoal e próprio, concretizado na comunhão de vida, a mesma não pode ser uma realidade isolada da comunidade.
Onde se situa Deus no CPM?
O movimento, sendo um caminho proposto pela Igreja, tem no seu fundamento último a fé, pelo que, os casais que partilham o seu testemunho de vida o fazem com os seus alicerces profundamente enraizados no Evangelho de Jesus. Não se coloca, por isso, uma necessidade de especificar onde está Deus no CPM, porque estando Ele na vida daqueles que dele fazem parte, o movimento não tem sentido sem a Sua presença constante e discreta. O CPM não é um momento de catequização, muito menos de “doutrinação”, é sim um momento de encontro dos noivos que, preparando o seu matrimónio, “bebem”, experimentam e experienciam o testemunho de vida daqueles que, vivendo a sua fé na vida em casal, querem propor-se, não como exemplo de perfeição, mas como testemunho de possibilidade de caminho feliz.
Qual é a realidade na nossa Diocese? Como tem decorrido e os resultados do CPM na diocese?
A nossa diocese foi pioneira na implementação do CPM! Desde muito cedo que se começou a organizar em diversos arciprestados, ao seu ritmo próprio, a realização de encontros do CPM. Neste momento existem dez centros de preparação para o matrimónio, ainda que nem todos com a orgânica do movimento, que pressupõe a partilha de pelo menos sete casais de diferentes idades e experiências de vida, com o intuito de proporcionar uma amplitude testemunhal coerente e sobretudo apelativa, quer na vivência das alegrias, quer na superação das dificuldades. Fazendo transmitir a mensagem que problemas existem que são transversais a todas as idades, a todas as realidades e em todos os momentos da vida matrimonial, seja ela ainda recente ou já com décadas de caminho. Bem como partilha de alegrias e felicidade que muitas vezes se julgam inatingíveis, uma vez que hoje em dia tudo parece concretizável no imediato. Na vida matrimonial, porque de pessoas se constitui, tudo é uma construção permanente. Os noivos hoje em dia não estão minimamente preparados para essa “espera”. É, também, missão do CPM concorrer para esse despertar.
Como tem sido feita a receção dos Casais divorciados?
Hoje em dia chegam-nos casais com imensas realidades partilhadas. Uma grande percentagem, para não arriscar dizer a maioria, chega ao CPM com uma caminhada conjunta que já pressupõe a vida em comum e, em alguns casos, a existência de filhos. Dentro desta realidade alguns tiveram já outras uniões civis, que terminaram pelo divórcio, indo celebrar, contudo, pela primeira vez o sacramento do matrimónio. A esses a receção é feita precisamente da mesma maneira que é feita aos outros, tendo em especial atenção a sua situação prévia. Posso testemunhar que no centro de CPM onde sou assistente já se convidaram alguns noivos a dar o seu testemunho de uniões civis que terminaram, partilhando estes, sobretudo, a falta de preparação para assumir o compromisso que tiveram, a dificuldade de adaptação à nova vida a dois, bem como uma certa incapacidade de ultrapassar as dificuldades.
Que resultados se têm alcançado com o CPM?
Os resultados plenos que se têm alcançado com o CPM só Deus os conhecerá. A missão deste movimento não é substituir-se à consciência de cada um, mas concorrer para que, com os testemunhos dos casais pertencentes à equipa, os noivos descubram a beleza do Sacramento que vão celebrar, a exigência do projeto em que se lançam e da sua responsabilidade no mundo e na igreja. Penso que a isto o CPM tem sido fiel e a ressonância da esmagadora maioria dos noivos que por ele passam vai, também, nesse sentido. Tivemos, inclusive, dois casos, que eu conheça, de casais que, terminado o CPM, refletindo seriamente sobre o que de lá tinham recolhido, decidiram adiar o seu matrimónio. Por antagónico que pareça, nestes casos, o CPM cumpriu a sua missão, uma vez que foi auxílio no discernimento e “formador” de consciências!
Como pode a preparação para o Matrimónio ajudar na definição do estilo de vida das famílias atuais? Que estilo de vida preconiza o CPM?
Em primeiro lugar é necessário ter presente que o CPM é um momento na vida dos noivos. Pode apenas, no tempo em que os noivos o frequentam, transmitir o testemunho dos casais que dele fazem parte, bem como o seu estilo de vida familiar, que, em maior razão é sempre sustentado pela fé, pela Palavra de Deus e pela comunidade. Depois é igualmente necessário perceber que é na comunidade paroquial, em última análise, que o testemunho de vida familiar deve ser transmitido e vivido, numa atenção permanente e especial aos casais novos.
Que desafios para o CPM, no seguimento do Sínodo da Família?
Os desafios para o CPM serão os mesmos que serão colocados a toda a Igreja. A pastoral familiar, a par da formação da fé, deve ser, em sentido estrito, a grande preocupação da vida da Igreja pelo que tudo o que foi construído neste Sínodo será, seguramente, de uma importância redobrada para os centros de preparação do matrimónio. Neste momento não podemos antever que mudanças serão realizadas nos centros mas, seguramente, serão mais ao nível da forma do que do conteúdo.
O que pode mudar com este Papa e com a perspetiva de a próxima Exortação Apostólica do Papa Francisco, sobre a preparação do Matrimónio?
A grande mudança a realizar com este Papa será sempre, como já referi, na forma como o Evangelho, a evangelização, o acolhimento e a própria comunidade cristã são apresentadas e propostas ao mundo de hoje. Pessoalmente não creio que se possam esperar grandes mudanças ao nível teológico ou doutrinal mas acredito que poderemos ter algumas surpresas no que ao nível da relação com a comunidade concerne. Quer seja na agilização dos processos de nulidade matrimonial, algo que já está em curso, quer no acolhimento a casais com situações ditas irregulares. O Evangelho é imutável mas a Igreja não e por conseguinte há sempre espaço para melhorar tudo aquilo que tenha a ver com ela e com o Povo que a constrói.
Padre Joaquim António Marques Duarte, nasceu a 17 de junho de 1956. Foi ordenado a 08 de abril de 1982. Atualmente é Arcipreste de Trancoso e tem a seu cargo as Paróquias de Cótimos, Moreira de Rei, Rio de Mel, Trancoso (Stª Maria e S. Pedro), Souto Maior e Valdujo. É Presidente do Secretariado Diocesano da Pastoral da Família, do Centro de Orientação Familiar, do Conselho Pastoral Diocesano e ainda da Comissão promotora e coordenadora do Diaconado Permanente. É Coordenador Diocesano da Pastoral; Membro do Cabido da Guarda e Capelão da Misericórdia de Trancoso.Tem sido uma frase muito utilizada pelo papa: “a Igreja tem de estar mais próxima das famílias?”. No seu entendimento, o que dizer com isto? Concretamente como se pode fazer isso?
Não podemos esquecer que o tema da proximidade com a família, com as pessoas, com a sociedade, isto é, com o mundo no qual a Igreja está inserida, é uma constante no discurso e na atuação do Papa Francisco. De fato este é o desígnio eterno de Deus cujas delicias é estar com os filhos dos homens ou como diz o livro do Génesis“Ouviram então a voz do Senhor Deus, que percorria o jardim à frescura do dia, e o homem e a sua mulher logo se esconderam do Senhor Deus por entre o arvoredo do jardim” (Gen. 3, 8). Sem este texto do livro do Génesis não perceberemos a intuição e a insistência do Papa com o tema da proximidade da Igreja com a família as periferias o mundo etc.
Bom, o fazer às vezes torna-se mais difícil, mas parece-me que além das atitudes de proximidade e de acolhimento por parte da Igreja que deve ter estruturas pastorais de atenção e proximidade às famílias, as próprias famílias também deveriam estar dispostas a integrarem os movimentos e as estruturas onde poderiam ter uma ação mais pertinente na vida da sociedade e uma ação mais evangelizadora da mesma sociedade, uma vez que as próprias famílias são uma primeira e fundamental estrutura e protagonistas da pastoral porque nelas se funda a verdade do plano de Deus sobre o ser humano e a sua vocação ao amor.
Muitas famílias vivem hoje momentos “dramáticos” por causa da guerra, da pobreza, do desemprego ou da instabilidade social, especialmente as que foram obrigadas a viver na condição de refugiadas. O que podem contar as famílias com esta nova realidade proposta pelo Papa Francisco?
Penso que nem por parte das famílias nem por parte da Igreja existem grandes novidades. Penso que o mundo sempre foi um grande “drama” à espera de grandes remédios e Deus , plenitude do Amor, é o grande remédio para todos os dramas da humanidade. A grande novidade somos nós e as nossas famílias a viverem, verdadeiros dramas e a passarem pela verdadeira Paixão do Senhor, e, por isso, a Igreja e as famílias cristãs associadas em grupos em movimentos, isto é, organizadas, deveriam apresentar, deveriam ter soluções de intervenção capazes de dar respostas concretas e materiais a essas situações porque respostas só de cariz espiritual não chegam pois já o Apóstolo Tiago escrevia aos primeiros cristãos dizendo : “De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso esta fé poderá salvá-lo? Se a um irmão ou uma irmã faltarem roupas e o alimento quotidiano, e algum de vós lhe disser: «Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos», mas não lhe derdes o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se não tiver obras, está morta em si mesma” (Tg. 2, 14-17).
Porque a família se insere numa sociedade que precisa de alguma mudança, no seu entendimento, que tipo de apoio as famílias precisam para estabilizar e cumprirem o Primado definido pela Igreja?
Quanto a mim o apoio de que as famílias necessitam, tirando um caso ou outro, entre nós, em que a intervenção social pela carência em que possam viver requer uma intervenção rápida e pronta, penso que seria um apoio que abrangesse em primeiro lugar a política nas suas “políticas sociais” de apoio, ou falta dele, às famílias, na vertente da fiscalidade e dos impostos, na vertente de apoios diretos como sejam abonos de família, regalias para famílias numerosas, atenção às condições de trabalho para as famílias com filhos pequenos … quero dizer todo um ambiente social que privilegiasse a família e desse oportunidade a todos os jovens que, sem medo do futuro, investirem na família e no futuro com esperança e com amor. Este é o grande “Primado” da Igreja quanto à familia. De facto, só há um novo e grande mandamento que é o do Amor e este concretiza-se na carne. A família, cristã ou não, deve ser a expressão “na carne” deste Amor tal como Cristo o é, e isto para as famílias cristãs torna-se Sacramento, Mistério.
Hoje, infelizmente, vemos uma grande rotura entre a família e a paróquia. Como fazer a aproximação desejada? Como proporcionar um maior acolhimento e acompanhamento? Nesta sociedade o que se pode fazer pelo bem das crianças?
Penso que a rotura não é propriamente com a paróquia mas com um paradigma de família a que estavamos habituados e que hoje já não é. O Papa Francisco em 17 de novembro de 2014 no “Colóquio Internacional sobre Complementaridade do Homem e da Mulher” dizia que: “Na nossa época o matrimónio está em crise. Vivemos numa cultura do provisório, na qual cada vez mais pessoas renunciam ao matrimónio como compromisso público… É cada vez mais evidente que a decadência da cultura do casamento está associada ao aumento da pobreza e a uma série de outros problemas sociais que afetam sobretudo as mulheres, as crianças e os idosos… É preciso insistir nos pilares fundamentais que regem uma nação: os seus bens imateriais. A família permanece na base da convivência, como garantia contra a desintegração social. As crianças têm o direito de crescer numa família com pai e mãe, capaz de criar um ambiente idóneo para o seu desenvolvimento e o seu amadurecimento afetivo”.
A aproximação desejada deve necessariamente passar pela formação humana e cristã dos nossos adultos, e sobretudo dos jovens, investindo todo o esforço na formação para a confiança com que devem viver a vida, a abertura ao amor sem receios do futuro alicerçados numa comunidade paroquial que deveria servir de apoio para essa confiança.
Quanto àquilo que se pode fazer pelo bem das crianças penso que o fundamental, como diz o Papa, seria dar-lhes um pai, uma mãe e irmãos, porque tudo o resto é importante: cuidados de saúde, cuidados de educação, cuidados de habitação e lazer; mas o mais importante seria aquilo.
A atuação da Igreja perante casos como o das pessoas divorciadas, recasadas ou que vivem em união de facto, foi uma questão que mereceu largo destaque mediático durante os Sínodos. Como integrar estas pessoas na vida da comunidade? Como pode ser feito este trabalho de integração?
Quanto a este assunto, que é pastoralmente muito delicado, começo por citar a recente exortação apostólica do Papa Francisco “O Sínodo referiu-se a diferentes situações de fragilidade ou imperfeição. A este respeito, quero lembrar aqui uma coisa que pretendi propor, com clareza, a toda a Igreja para não nos equivocarmos no caminho: “Duas lógicas percorrem toda a história da Igreja: marginalizar e integrar… o caminho da Igreja, desde o concílio de Jerusalém em diante é sempre o de Jesus; o caminho da misericórdia e da integração. …O caminho da Igreja é o de não condenar eternamente ninguém; derramar a misericórdia de Deus sobre todas as pessoas que a pedem com coração sincero … Porque a caridade verdadeira é sempre imerecida, incondicional e gratuita.” (A.L. 296). O Papa apela depois para a complexidade e a diversidade das situações que merecem toda a atenção dos próprios e dos pastores.
A participação destas pessoas diz o Papa que: “pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais, sendo necessário, por isso, discernir quais das diferentes formas de exclusão atualmente praticadas em âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional possam ser superadas. Não só não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e maturar como membros vivos da Igreja, sentindo-a como uma mãe que sempre os acolhe, cuida afetuosamente deles e encoraja-os no caminho da vida e do evangelho. (A.L.299)
O Papa diz que não vai apresentar uma normativa de tipo canónico e que seja igual para todos, mas apresenta uma nova perspetiva ao dizer: “É possivel apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que «o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos», as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos.” (A.L. 300)
Este trabalho de integração deve envolver por isso num mesmo processo quer o próprio quer o sacerdote que deve: “acompanhar as pessoas interessadas pelo caminho do discernimento segundo a doutrina da Igreja e as orientações do bispo.” (A.L. 300)
Outro aspeto importante na realidade atual, é o acesso aos Sacramentos. Tendo em pano de fundo a nossa realidade, como será feito o acesso aos Sacramentos?
Era muito mais fácil para nós que o Papa tivesse dado uma norma de tipo canónica ou jurídica para estes casos, mas não foi o que aconteceu. O Papa faz-nos passar deste nivel jurídico, o “se é permitido ou não”, para um outro nível de atuação pastoral de tipo mais personalista, existencialista, de proximidade, de acompanhamento, aliás um pouco, ou até muito, na linha do Concilio Vaticano II ou o que é mais ainda na linha do Evangelho ou da maneira de Jesus atuar à qual o Papa recorre frequentemente.
Além disso o Papa diz que para este discernimento pastoral ser bem feito: “…não poderá jamais prescindir das exigências evangélicas de verdade e caridade propostas pela Igreja. Para que isto aconteça, devem garantir-se as necessárias condições de humildade, privacidade, amor à Igreja e à sua doutrina, na busca sincera da vontade de Deus e no desejo de chegar a uma resposta mais perfeita à mesma”. (A.L. 300)
Assim o Papa, sem descurar a importância e a necessidade das normas gerais volta a insistir na necessidade do discernimento dizendo: “É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem transcurar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão aquilo que faz parte de um discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma.” (A.L. 304)
Portanto na nossa realidade, como na realidade de toda a Igreja católica, deve agir-se seguindo estas indicações do Papa; o discernimento pastoral será o grande desafio. “O discernimento deve ajudar a encontrar os caminhos possíveis de resposta a Deus e de crescimento no meio dos limites. Por pensar que tudo seja branco ou preto, às vezes fechamos o caminho da graça e do crescimento e desencorajamos percursos de santificação que dão glória a Deus. Lembremo-nos de que um pequeno passo, no meio das grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades”. (A.L. 305)
“A caridade fraterna é a primeira lei dos cristãos.”(A.L. 306)
O desafio dos cristãos é estar ao lado de quem mais precisa. Esta é a atitude do Papa Francisco: estar ao lado, não condenar, procurar o lado positivo da questão e fazê-lo crescer. O que falta para imitar a família de Nazaré?
Bom, para imitar a família de Nazaré faltará muita coisa, mas penso que a questão não é essa. Essa seria uma questão muito piedosa e de cariz espiritual, no âmbito da dociliade ao Espírito, mas parece-me que o que verdadeiramente está em questão são as famílias do nosso tempo com as suas dificuldades com as suas sombras e pecados, as suas limitações e dificuldades. Ou seja aquilo de que somos feitos: “pó da terra” mas que é imensamente amado por Deus que fez dele (casal Humano), a sua imagem, a sua semelhança e isto ninguém nos pode tirar. Por outro lado, as nossas famílias são chamadas, pela força do sacramento que as une, a serem o grande testemunho da misericórdia, do amor e da bondade de Deus diante do mundo que muitas vezes e de formas muito variadas e às vezes até “agressivas” rejeita o Espírito de Deus presente no mundo.
Depois da realização dos Sínodos, o Papa Francisco deu expressão ao seu pensamento, escrevendo a Exortação Apostólica. Que novidades traz? O que pode mudar na vida das Famílias?
Um dia perguntaram a Jesus a sua opinião sobre uma questão familiar, ou seja a do divórcio, (Mt. 19, 3-12) procurando na resposta alguma novidade que pudessem aproveitar para acusar Jesus, mas Ele simplesmente foi “ao princípio” para ensinar que o desígnio de Deus acerca do ser humano se deve manter. Parece-me que nesta exortação a grande novidade é esta: manter a família neste desígnio de Deus. As primeiras palavras da exortação denunciam-no claramente: “A ALEGRIA DO AMOR que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja”. (A. L. 1) Um cunho marcadamente existencialista, personalista e gratificante do amor humano, vivido nas dificuldades do tempo atual, penso que é a grande novidade, repito, na linha da Gaudium et Spes e, sobretudo, na linha de Jesus e do seu Evangelho.
Esta exortação pode, por isso, ser um grande desafio para as famílias cristãs e para os jovens cristãos que devem perceber a família como um desafio à realização integral do ser humano, homem e mulher, que o Papa põe por escrito ao dizer numa linguagem tão poética e tão bela: “ Toda a vida da família é um «pastoreio» misericordioso. Cada um, cuidadosamente, desenha e escreve na vida do outro:”( A. L. 322)
No caso particular da nossa Diocese, como tem decorrido o trabalho do Secretariado Diocesano da Família? Quais as metas para um futuro próximo? Quais as atividade planeadas, tendo em conta a nova Exortação Apostólica?
O secretariado Diocesano da família tem procurado animar e coordenar a Pastoral Familiar da Diocese que é responsabilidade de toda a comunidade eclesial, isto é, não esgotamos, nem pouco mais ou menos toda a pastoral familiar até porque a ação pastoral familiar diz respeito a toda a comunidade, é uma ação transversal a toda a vida da Igreja. De facto, a grande protagonista é a mesma Igreja. O Secretariado tem procurado animar e dinamizar esta vida pastoral sobretudo através de duas grandes ações : A Jornada da Família com caráter formativo e de reflexão e o Dia da Família de tipo mais celebrativo e lúdico. Procuramos também fazer alguma coordenação de outras estruturas ligadas à pastoral familiar, como sejam CPM, ENS e outros.
Temos uma grande meta à qual ainda não chegámos mas da qual não queremos desistir que é a da constituição de pequenas equipas da Pastoral Familiar pelo menos a nível Arciprestal e continuar um trabalho de acompanhamento onde formos solicitados.
Não existe família perfeita. Não temos pais perfeitos, não somos perfeitos, não nos casamos com uma pessoa perfeita nem temos filhos perfeitos. Temos queixas uns dos outros. Dececionamo-nos uns aos outros. Por isso, não há casamento saudável nem família saudável sem o exercício do perdão. O perdão é vital para a nossa saúde emocional e sobrevivência espiritual. Sem perdão a família torna-se uma arena de conflitos e um reduto de mágoas.
Sem perdão a família adoece. O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente e a alforria do coração.
Quem não perdoa não tem paz na alma nem comunhão com Deus. A mágoa é um veneno que intoxica e mata. Guardar mágoa no coração é um gesto autodestrutivo. É autofagia. Quem não perdoa adoece física, emocional e espiritualmente.
É por isso que a família precisa de ser lugar de vida e não de morte; território de cura e não de doença; palco de perdão e não de culpa. O perdão traz alegria onde a mágoa produziu tristeza; cura, onde a mágoa causou doença.
No seu pontificado, o Papa Francisco sempre faz questão de ressaltar a importância da família e os valores que devem direcionar as relações familiares. Algumas frases do Papa:
1. “E esta é a grande missão da família: arranjar lugar para Jesus que vem, receber Jesus na família, na pessoa dos filhos, do marido, da esposa, dos avós, porque Jesus está aí.” Audiência Geral, 17 de dezembro de 2014.
2. “Três palavras que devem existir sempre em casa: com licença, obrigado, desculpa. Com licença: para não se intrometer na vida dos cônjuges. Com licença, como te parece isto? Com licença, permite-me. Obrigado: agradecer ao cônjuge; obrigado por aquilo que fizeste por mim, obrigado por isto. A beleza da gratidão! E dado que todos nós erramos, há outra palavra um pouco difícil de pronunciar, mas necessária: desculpa.” Catequese, 2 de abril de 2014.
3. “Aquilo que mais pesa na vida é a falta de amor. Pesa não receber um sorriso, não ser benquisto. Pesam certos silêncios, às vezes mesmo em família, entre marido e esposa, entre pais e filhos, entre irmãos. Sem amor, a fadiga torna-se mais pesada, intolerável.” Discurso às Famílias, 26 de Outubro de 2013
4. “Sim, ser mãe não significa só trazer um filho ao mundo, mas é também uma opção de vida: o que é que uma mãe escolhe? Qual é a opção de vida de uma mãe? A opção de vida de uma mãe é a opção de dar vida. E isto é grande, isto é belo.” Audiência Geral, 7 de janeiro de 2015.
5. “O pai procura ensinar ao filho aquilo que ele ainda não sabe, corrigir os erros que ainda não vê, orientar o seu coração, protegê-lo no desânimo e na dificuldade. Tudo isso com proximidade, com doçura e com uma firmeza que não humilhe.” Audiência Geral. 4 de fevereiro de 2015.
6. “A família atravessa uma crise cultural profunda, como todas as comunidades e vínculos sociais. No caso da família, a fragilidade dos vínculos reveste-se de especial gravidade, porque se trata da célula básica da sociedade.” Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 2013
7. “O verdadeiro vínculo é sempre com o Senhor. Todas as famílias têm necessidade de Deus: todas, todas! Necessidade da Sua ajuda, da Sua força, da Sua bênção, da Sua misericórdia, do Seu perdão. E requer-se simplicidade. Para rezar em família requer-se simplicidade! Quando a família reza unida o vínculo torna-se mais forte”. Homilia da Missa do Encontro de Famílias, que se realizou em Roma em outubro de 2013.
8. “O matrimónio é uma longa viagem que dura toda a vida, e necessitam da ajuda de Jesus para caminhar juntos, com confiança, para se acolherem, um ao outro todos os dias, e perdoarem-se todos os dias; e isto é importante nas famílias, saberem perdoar-se. Porque todos nós temos defeitos. Todos!”. Encontro de Famílias em Roma em outubro de 2013.
9. “Uma sociedade que descarta os seus idosos é uma sociedade sem dignidade, perde as suas raízes e vigor; uma sociedade que não se rodeia de filhos, que os considera um problema, um peso, não tem futuro.” Audiência Geral, 10 de fevereiro de 2015.
10. “A verdadeira alegria vem da harmonia profunda entre as pessoas, que todos experimentam no seu coração e que nos faz sentir a beleza de estar juntos, de apoiar-se mutuamente no caminho da vida”. Missa de encerramento do Encontro de Famílias, em Roma.
Queridas famílias,
Apresento-me à porta da vossa casa para vos falar de um acontecimento que vai realizar-se, como é sabido, no próximo mês de Outubro, no Vaticano: trata-se da Assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos, convocada para discutir o tema «Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização». Efetivamente, hoje, a Igreja é chamada a anunciar o Evangelho, enfrentando também as novas urgências pastorais que dizem respeito à família. Este encontro envolve todo o Povo de Deus: Bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos das Igrejas particulares do mundo inteiro, que participam ativamente, na sua preparação, com sugestões concretas e com a ajuda indispensável da oração. O apoio da oração é muito necessário e significativo, especialmente da vossa parte, queridas famílias; na verdade, esta Assembleia sinodal é dedicada de modo especial a vós, à vossa vocação e missão na Igreja e na sociedade, aos problemas do matrimónio, da vida familiar, da educação dos filhos, e ao papel das famílias na missão da Igreja. Por isso, peço-vos para invocardes intensamente o Espírito Santo, a fim de que ilumine os Padres sinodais e os guie na sua exigente tarefa. Como sabeis, a esta Assembleia sinodal extraordinária, seguir-se-á, um ano depois, a Assembleia ordinária, que desenvolverá o mesmo tema da família. E, neste mesmo contexto, realizar-se-á o Encontro Mundial das Famílias, na cidade de Filadélfia, em setembro de 2015. Por isso, unamo-nos todos em oração para que a Igreja realize, através destes acontecimentos, um verdadeiro caminho de discernimento e adote os meios pastorais adequados para ajudarem as famílias a enfrentar os desafios atuais com a luz e a força que provêm do Evangelho.
Estou a escrever-vos esta carta no dia em que se celebra a festa da Apresentação de Jesus no templo. O evangelista Lucas conta que Nossa Senhora e São José, de acordo com a Lei de Moisés, levaram o Menino ao templo para oferecê-Lo ao Senhor e, nessa ocasião, duas pessoas idosas – Simeão e Ana –, movidas pelo Espírito Santo, foram ter com eles e reconheceram em Jesus o Messias. Simeão tomou-O nos braços e agradeceu a Deus, porque tinha finalmente «visto» a salvação; Ana, apesar da sua idade avançada, encheu-se de novo vigor e pôs-se a falar a todos do Menino. É uma imagem bela: um casal de pais jovens e duas pessoas idosas, reunidos devido a Jesus. Verdadeiramente Jesus faz com que as gerações se encontrem e unam! Ele é a fonte inesgotável daquele amor que vence todo o isolamento, toda a solidão, toda a tristeza. No vosso caminho familiar, partilhais tantos momentos belos: as refeições, o descanso, o trabalho em casa, a diversão, a oração, as viagens e as peregrinações, as ações de solidariedade... Todavia, se falta o amor, falta a alegria; e Jesus é quem nos dá o amor autêntico: oferece-nos a sua Palavra, que ilumina a nossa estrada; dá-nos o Pão de vida, que sustenta a labuta diária do nosso caminho.
Queridas famílias, a vossa oração pelo Sínodo dos Bispos será um tesouro precioso que enriquecerá a Igreja. Eu vo-la agradeço e peço que rezeis também por mim, para que possa servir o Povo de Deus na verdade e na caridade. A proteção da Bem-Aventurada Virgem Maria e de São José acompanhe sempre a todos vós e vos ajude a caminhar unidos no amor e no serviço recíproco. De coração invoco sobre cada família a bênção do Senhor.
A Exortação Apostólica do Papa Francisco, “Amoris Laetitia” – a alegria do amor, foi apresentada no passado dia 8 do corrente mês de Abril.
Era muito esperada, podendo nós dizer que apareceu em tempo muito breve depois dos dois sínodos sobre a família realizados em 2014 e 2015.
Organiza-se em nove capítulos, onde são contempladas as várias dimensões da instituição familiar e também se apontam caminhos de acompanhamento das famílias, assim como tentativas de superação de muitas das suas fragilidades. Um dos capítulos, o penúltimo, tem mesmo o título seguinte: “Acompanhar, discernir e integrar as fragilidades”.
Sobre as várias situações de fragilidade, a exortação lembra o princípio geral de que a Igreja deve acompanhar com atenção e solicitude os seus filhos mais débeis (n.291). Recomenda insistentemente aos pastores disponibilidade para o discernimento pastoral, que, sem prescindir das exigências da verdade e da caridade evangélicas (nº 300), sabe utilizar a lógica da misericórdia pastoral (nº 306).
Sobretudo quanto às muito frequentes uniões de facto, com ou sem casamento civil, remete para a lei da gradualidade proposta pelo Papa João Paulo II, na encíclica “Familiaris Consortio”, nº 34.
Por sua vez, sobre os divorciados recasados lembra que “o caminho da Igreja é o de não condenar eternamente ninguém” (o Papa cita-se a si mesmo, na homilia pronunciada para os novos cardeais, em 15/2/2015) e tem expressões como esta: “Não se pode dizer que todos os que estão em situação irregular vivem em pecado mortal” (nº 301).
Estamos perante um texto de orientações pastorais que vai exigir muito de todos nós pastores para servirmos as famílias na sua caminhada de amor aberto à vida, em situações cada vez mais plurais.