O Pe. Valter Tiago Salcedas Duarte, nasceu a 04 de junho de 1981. Foi Ordenado a 08 de dezembro de 2008. Atualmente é Arcipreste de Alpedrinha e Pároco de Castelo Novo, Alpedrinha, Soalheira, Louriçal do Campo e Atalaia do Campo. É Capelão da Misericórdia de Alpedrinha e Diretor do Departamento Diocesano da Catequese da Infância e da Adolescência, bem como Assistente diocesano do CPM.
O que é o CPM e quais os objetivos o CPM?
O CPM é um movimento de leigos, assistido por um sacerdote, que é proposto pela Igreja como um momento e um caminho de preparação para o Sacramento do Matrimónio, estando organizados a nível internacional, com especificidade diocesana e concretização arciprestal. Procura, através de uma metodologia própria, baseada na revisão de vida dos casais que fazem parte da equipa, no seu testemunho vivencial e no diálogo com os noivos, preparar o matrimónio destes, fazendo-os refletir sobre o seu namoro/noivado e confrontá-los com a validade dos seus projetos de vida, dos seus comportamentos pessoais, sociais e eclesiais.
Quem visa/pretende alcançar o CPM?
O movimento tem como objetivo chegar a todos aqueles que pretendem celebrar o seu matrimónio. Neste objetivo geral percebemos que, mediante a transformação permanente da sociedade e sendo esta nos nossos dias feita a uma velocidade alucinante, existe uma necessidade cada vez mais premente de chegar, de facto, aos noivos. Procurando despertar ou fazer renascer a fé, dialogando acerca das suas ideias e ajudando-os, a eles próprios, a dialogar entre si e sobretudo preparando-os para a necessária superação das dificuldades, fazendo-os sentir que a construção de um caminho a dois é uma empresa comum e comunitária, isto é, fazendo-os reconhecer a necessidade de, tendo o seu espaço pessoal e próprio, concretizado na comunhão de vida, a mesma não pode ser uma realidade isolada da comunidade.
Onde se situa Deus no CPM?
O movimento, sendo um caminho proposto pela Igreja, tem no seu fundamento último a fé, pelo que, os casais que partilham o seu testemunho de vida o fazem com os seus alicerces profundamente enraizados no Evangelho de Jesus. Não se coloca, por isso, uma necessidade de especificar onde está Deus no CPM, porque estando Ele na vida daqueles que dele fazem parte, o movimento não tem sentido sem a Sua presença constante e discreta. O CPM não é um momento de catequização, muito menos de “doutrinação”, é sim um momento de encontro dos noivos que, preparando o seu matrimónio, “bebem”, experimentam e experienciam o testemunho de vida daqueles que, vivendo a sua fé na vida em casal, querem propor-se, não como exemplo de perfeição, mas como testemunho de possibilidade de caminho feliz.
Qual é a realidade na nossa Diocese? Como tem decorrido e os resultados do CPM na diocese?
A nossa diocese foi pioneira na implementação do CPM! Desde muito cedo que se começou a organizar em diversos arciprestados, ao seu ritmo próprio, a realização de encontros do CPM. Neste momento existem dez centros de preparação para o matrimónio, ainda que nem todos com a orgânica do movimento, que pressupõe a partilha de pelo menos sete casais de diferentes idades e experiências de vida, com o intuito de proporcionar uma amplitude testemunhal coerente e sobretudo apelativa, quer na vivência das alegrias, quer na superação das dificuldades. Fazendo transmitir a mensagem que problemas existem que são transversais a todas as idades, a todas as realidades e em todos os momentos da vida matrimonial, seja ela ainda recente ou já com décadas de caminho. Bem como partilha de alegrias e felicidade que muitas vezes se julgam inatingíveis, uma vez que hoje em dia tudo parece concretizável no imediato. Na vida matrimonial, porque de pessoas se constitui, tudo é uma construção permanente. Os noivos hoje em dia não estão minimamente preparados para essa “espera”. É, também, missão do CPM concorrer para esse despertar.
Como tem sido feita a receção dos Casais divorciados?
Hoje em dia chegam-nos casais com imensas realidades partilhadas. Uma grande percentagem, para não arriscar dizer a maioria, chega ao CPM com uma caminhada conjunta que já pressupõe a vida em comum e, em alguns casos, a existência de filhos. Dentro desta realidade alguns tiveram já outras uniões civis, que terminaram pelo divórcio, indo celebrar, contudo, pela primeira vez o sacramento do matrimónio. A esses a receção é feita precisamente da mesma maneira que é feita aos outros, tendo em especial atenção a sua situação prévia. Posso testemunhar que no centro de CPM onde sou assistente já se convidaram alguns noivos a dar o seu testemunho de uniões civis que terminaram, partilhando estes, sobretudo, a falta de preparação para assumir o compromisso que tiveram, a dificuldade de adaptação à nova vida a dois, bem como uma certa incapacidade de ultrapassar as dificuldades.
Que resultados se têm alcançado com o CPM?
Os resultados plenos que se têm alcançado com o CPM só Deus os conhecerá. A missão deste movimento não é substituir-se à consciência de cada um, mas concorrer para que, com os testemunhos dos casais pertencentes à equipa, os noivos descubram a beleza do Sacramento que vão celebrar, a exigência do projeto em que se lançam e da sua responsabilidade no mundo e na igreja. Penso que a isto o CPM tem sido fiel e a ressonância da esmagadora maioria dos noivos que por ele passam vai, também, nesse sentido. Tivemos, inclusive, dois casos, que eu conheça, de casais que, terminado o CPM, refletindo seriamente sobre o que de lá tinham recolhido, decidiram adiar o seu matrimónio. Por antagónico que pareça, nestes casos, o CPM cumpriu a sua missão, uma vez que foi auxílio no discernimento e “formador” de consciências!
Como pode a preparação para o Matrimónio ajudar na definição do estilo de vida das famílias atuais? Que estilo de vida preconiza o CPM?
Em primeiro lugar é necessário ter presente que o CPM é um momento na vida dos noivos. Pode apenas, no tempo em que os noivos o frequentam, transmitir o testemunho dos casais que dele fazem parte, bem como o seu estilo de vida familiar, que, em maior razão é sempre sustentado pela fé, pela Palavra de Deus e pela comunidade. Depois é igualmente necessário perceber que é na comunidade paroquial, em última análise, que o testemunho de vida familiar deve ser transmitido e vivido, numa atenção permanente e especial aos casais novos.
Que desafios para o CPM, no seguimento do Sínodo da Família?
Os desafios para o CPM serão os mesmos que serão colocados a toda a Igreja. A pastoral familiar, a par da formação da fé, deve ser, em sentido estrito, a grande preocupação da vida da Igreja pelo que tudo o que foi construído neste Sínodo será, seguramente, de uma importância redobrada para os centros de preparação do matrimónio. Neste momento não podemos antever que mudanças serão realizadas nos centros mas, seguramente, serão mais ao nível da forma do que do conteúdo.
O que pode mudar com este Papa e com a perspetiva de a próxima Exortação Apostólica do Papa Francisco, sobre a preparação do Matrimónio?
A grande mudança a realizar com este Papa será sempre, como já referi, na forma como o Evangelho, a evangelização, o acolhimento e a própria comunidade cristã são apresentadas e propostas ao mundo de hoje. Pessoalmente não creio que se possam esperar grandes mudanças ao nível teológico ou doutrinal mas acredito que poderemos ter algumas surpresas no que ao nível da relação com a comunidade concerne. Quer seja na agilização dos processos de nulidade matrimonial, algo que já está em curso, quer no acolhimento a casais com situações ditas irregulares. O Evangelho é imutável mas a Igreja não e por conseguinte há sempre espaço para melhorar tudo aquilo que tenha a ver com ela e com o Povo que a constrói.
