Entrevista ao Presidente do Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar

Padre Joaquim António Marques Duarte, nasceu a 17 de junho de 1956. Foi ordenado a 08 de abril de 1982. Atualmente é Arcipreste de Trancoso e tem a seu cargo as Paróquias de Cótimos, Moreira de Rei, Rio de Mel, Trancoso (Stª Maria e S. Pedro), Souto Maior e Valdujo. É Presidente do Secretariado Diocesano da Pastoral da Família, do Centro de Orientação Familiar, do Conselho Pastoral Diocesano e ainda da Comissão promotora e coordenadora do Diaconado Permanente. É Coordenador Diocesano da Pastoral; Membro do Cabido da Guarda e Capelão da Misericórdia de Trancoso.

Tem sido uma frase muito utilizada pelo papa: “a Igreja tem de estar mais próxima das famílias?”. No seu entendimento, o que dizer com isto? Concretamente como se pode fazer isso?

Não podemos esquecer que o tema da proximidade com a família, com as pessoas, com a sociedade, isto é, com o mundo no qual a Igreja está inserida, é uma constante no discurso e na atuação do Papa Francisco. De fato este é o desígnio eterno de Deus cujas delicias é estar com os filhos dos homens ou como diz o livro do Génesis“Ouviram então a voz do Senhor Deus, que percorria o jardim à frescura do dia, e o homem e a sua mulher logo se esconderam do Senhor Deus por entre o arvoredo do jardim” (Gen. 3, 8). Sem este texto do livro do Génesis não perceberemos a intuição e a insistência do Papa com o tema da proximidade da Igreja com a família as periferias o mundo etc.

Bom, o fazer às vezes torna-se mais difícil, mas parece-me que além das atitudes de proximidade e de acolhimento por parte da Igreja que deve ter estruturas pastorais de atenção e proximidade às famílias, as próprias famílias também deveriam estar dispostas a integrarem os movimentos e as estruturas onde poderiam ter uma ação mais pertinente na vida da sociedade e uma ação mais evangelizadora da mesma sociedade, uma vez que as próprias famílias são uma primeira e fundamental estrutura e protagonistas da pastoral porque nelas se funda a verdade do plano de Deus sobre o ser humano e a sua vocação ao amor.

Muitas famílias vivem hoje momentos “dramáticos” por causa da guerra, da pobreza, do desemprego ou da instabilidade social, especialmente as que foram obrigadas a viver na condição de refugiadas. O que podem contar as famílias com esta nova realidade proposta pelo Papa Francisco?

Penso que nem por parte das famílias nem por parte da Igreja existem grandes novidades. Penso que o mundo sempre foi um grande “drama” à espera de grandes remédios e Deus , plenitude do Amor, é o grande remédio para todos os dramas da humanidade. A grande novidade somos nós e as nossas famílias a viverem, verdadeiros dramas e a passarem pela verdadeira Paixão do Senhor, e, por isso, a Igreja e as famílias cristãs associadas em grupos em movimentos, isto é, organizadas, deveriam apresentar, deveriam ter soluções de intervenção capazes de dar respostas concretas e materiais a essas situações porque respostas só de cariz espiritual não chegam pois já o Apóstolo Tiago escrevia aos primeiros cristãos dizendo : “De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso esta fé poderá salvá-lo? Se a um irmão ou uma irmã faltarem roupas e o alimento quotidiano, e algum de vós lhe disser: «Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos», mas não lhe derdes o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se não tiver obras, está morta em si mesma” (Tg. 2, 14-17).

Porque a família se insere numa sociedade que precisa de alguma mudança, no seu entendimento, que tipo de apoio as famílias precisam para estabilizar e cumprirem o Primado definido pela Igreja?

Quanto a mim o apoio de que as famílias necessitam, tirando um caso ou outro, entre nós, em que a intervenção social pela carência em que possam viver requer uma intervenção rápida e pronta, penso que seria um apoio que abrangesse em primeiro lugar a política nas suas “políticas sociais” de apoio, ou falta dele, às famílias, na vertente da fiscalidade e dos impostos, na vertente de apoios diretos como sejam abonos de família, regalias para famílias numerosas, atenção às condições de trabalho para as famílias com filhos pequenos … quero dizer todo um ambiente social que privilegiasse a família e desse oportunidade a todos os jovens que, sem medo do futuro, investirem na família e no futuro com esperança e com amor. Este é o grande “Primado” da Igreja quanto à familia. De facto, só há um novo e grande mandamento que é o do Amor e este concretiza-se na carne. A família, cristã ou não, deve ser a expressão “na carne” deste Amor tal como Cristo o é, e isto para as famílias cristãs torna-se Sacramento, Mistério.

Hoje, infelizmente, vemos uma grande rotura entre a família e a paróquia. Como fazer a aproximação desejada? Como proporcionar um maior acolhimento e acompanhamento? Nesta sociedade o que se pode fazer pelo bem das crianças?

Penso que a rotura não é propriamente com a paróquia mas com um paradigma de família a que estavamos habituados e que hoje já não é. O Papa Francisco em 17 de novembro de 2014 no “Colóquio Internacional sobre Complementaridade do Homem e da Mulher” dizia que: “Na nossa época o matrimónio está em crise. Vivemos numa cultura do provisório, na qual cada vez mais pessoas renunciam ao matrimónio como compromisso público… É cada vez mais evidente que a decadência da cultura do casamento está associada ao aumento da pobreza e a uma série de outros problemas sociais que afetam sobretudo as mulheres, as crianças e os idosos… É preciso insistir nos pilares fundamentais que regem uma nação: os seus bens imateriais. A família permanece na base da convivência, como garantia contra a desintegração social. As crianças têm o direito de crescer numa família com pai e mãe, capaz de criar um ambiente idóneo para o seu desenvolvimento e o seu amadurecimento afetivo”.

A aproximação desejada deve necessariamente passar pela formação humana e cristã dos nossos adultos, e sobretudo dos jovens, investindo todo o esforço na formação para a confiança com que devem viver a vida, a abertura ao amor sem receios do futuro alicerçados numa comunidade paroquial que deveria servir de apoio para essa confiança.

Quanto àquilo que se pode fazer pelo bem das crianças penso que o fundamental, como diz o Papa, seria dar-lhes um pai, uma mãe e irmãos, porque tudo o resto é importante: cuidados de saúde, cuidados de educação, cuidados de habitação e lazer; mas o mais importante seria aquilo.

A atuação da Igreja perante casos como o das pessoas divorciadas, recasadas ou que vivem em união de facto, foi uma questão que mereceu largo destaque mediático durante os Sínodos. Como integrar estas pessoas na vida da comunidade? Como pode ser feito este trabalho de integração?

Quanto a este assunto, que é pastoralmente muito delicado, começo por citar a recente exortação apostólica do Papa Francisco “O Sínodo referiu-se a diferentes situações de fragilidade ou imperfeição. A este respeito, quero lembrar aqui uma coisa que pretendi propor, com clareza, a toda a Igreja para não nos equivocarmos no caminho: “Duas lógicas percorrem toda a história da Igreja: marginalizar e integrar… o caminho da Igreja, desde o concílio de Jerusalém em diante é sempre o de Jesus; o caminho da misericórdia e da integração. …O caminho da Igreja é o de não condenar eternamente ninguém; derramar a misericórdia de Deus sobre todas as pessoas que a pedem com coração sincero … Porque a caridade verdadeira é sempre imerecida, incondicional e gratuita.” (A.L. 296). O Papa apela depois para a complexidade e a diversidade das situações que merecem toda a atenção dos próprios e dos pastores.

A participação destas pessoas diz o Papa que: “pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais, sendo necessário, por isso, discernir quais das diferentes formas de exclusão atualmente praticadas em âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional possam ser superadas. Não só não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e maturar como membros vivos da Igreja, sentindo-a como uma mãe que sempre os acolhe, cuida afetuosamente deles e encoraja-os no caminho da vida e do evangelho. (A.L.299)

O Papa diz que não vai apresentar uma normativa de tipo canónico e que seja igual para todos, mas apresenta uma nova perspetiva ao dizer: “É possivel apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que «o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos», as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos.” (A.L. 300)
Este trabalho de integração deve envolver por isso num mesmo processo quer o próprio quer o sacerdote que deve: “acompanhar as pessoas interessadas pelo caminho do discernimento segundo a doutrina da Igreja e as orientações do bispo.” (A.L. 300)

Outro aspeto importante na realidade atual, é o acesso aos Sacramentos. Tendo em pano de fundo a nossa realidade, como será feito o acesso aos Sacramentos?

Era muito mais fácil para nós que o Papa tivesse dado uma norma de tipo canónica ou jurídica para estes casos, mas não foi o que aconteceu. O Papa faz-nos passar deste nivel jurídico, o “se é permitido ou não”, para um outro nível de atuação pastoral de tipo mais personalista, existencialista, de proximidade, de acompanhamento, aliás um pouco, ou até muito, na linha do Concilio Vaticano II ou o que é mais ainda na linha do Evangelho ou da maneira de Jesus atuar à qual o Papa recorre frequentemente.

Além disso o Papa diz que para este discernimento pastoral ser bem feito: “…não poderá jamais prescindir das exigências evangélicas de verdade e caridade propostas pela Igreja. Para que isto aconteça, devem garantir-se as necessárias condições de humildade, privacidade, amor à Igreja e à sua doutrina, na busca sincera da vontade de Deus e no desejo de chegar a uma resposta mais perfeita à mesma”. (A.L. 300)

Assim o Papa, sem descurar a importância e a necessidade das normas gerais volta a insistir na necessidade do discernimento dizendo: “É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem transcurar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão aquilo que faz parte de um discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma.” (A.L. 304)

Portanto na nossa realidade, como na realidade de toda a Igreja católica, deve agir-se seguindo estas indicações do Papa; o discernimento pastoral será o grande desafio. “O discernimento deve ajudar a encontrar os caminhos possíveis de resposta a Deus e de crescimento no meio dos limites. Por pensar que tudo seja branco ou preto, às vezes fechamos o caminho da graça e do crescimento e desencorajamos percursos de santificação que dão glória a Deus. Lembremo-nos de que um pequeno passo, no meio das grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades”. (A.L. 305)
“A caridade fraterna é a primeira lei dos cristãos.”(A.L. 306)

O desafio dos cristãos é estar ao lado de quem mais precisa. Esta é a atitude do Papa Francisco: estar ao lado, não condenar, procurar o lado positivo da questão e fazê-lo crescer. O que falta para imitar a família de Nazaré?

Bom, para imitar a família de Nazaré faltará muita coisa, mas penso que a questão não é essa. Essa seria uma questão muito piedosa e de cariz espiritual, no âmbito da dociliade ao Espírito, mas parece-me que o que verdadeiramente está em questão são as famílias do nosso tempo com as suas dificuldades com as suas sombras e pecados, as suas limitações e dificuldades. Ou seja aquilo de que somos feitos: “pó da terra” mas que é imensamente amado por Deus que fez dele (casal Humano), a sua imagem, a sua semelhança e isto ninguém nos pode tirar. Por outro lado, as nossas famílias são chamadas, pela força do sacramento que as une, a serem o grande testemunho da misericórdia, do amor e da bondade de Deus diante do mundo que muitas vezes e de formas muito variadas e às vezes até “agressivas” rejeita o Espírito de Deus presente no mundo.

Depois da realização dos Sínodos, o Papa Francisco deu expressão ao seu pensamento, escrevendo a Exortação Apostólica. Que novidades traz? O que pode mudar na vida das Famílias?
Um dia perguntaram a Jesus a sua opinião sobre uma questão familiar, ou seja a do divórcio, (Mt. 19, 3-12) procurando na resposta alguma novidade que pudessem aproveitar para acusar Jesus, mas Ele simplesmente foi “ao princípio” para ensinar que o desígnio de Deus acerca do ser humano se deve manter. Parece-me que nesta exortação a grande novidade é esta: manter a família neste desígnio de Deus. As primeiras palavras da exortação denunciam-no claramente: “A ALEGRIA DO AMOR que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja”. (A. L. 1) Um cunho marcadamente existencialista, personalista e gratificante do amor humano, vivido nas dificuldades do tempo atual, penso que é a grande novidade, repito, na linha da Gaudium et Spes e, sobretudo, na linha de Jesus e do seu Evangelho.

Esta exortação pode, por isso, ser um grande desafio para as famílias cristãs e para os jovens cristãos que devem perceber a família como um desafio à realização integral do ser humano, homem e mulher, que o Papa põe por escrito ao dizer numa linguagem tão poética e tão bela: “ Toda a vida da família é um «pastoreio» misericordioso. Cada um, cuidadosamente, desenha e escreve na vida do outro:”( A. L. 322)

No caso particular da nossa Diocese, como tem decorrido o trabalho do Secretariado Diocesano da Família? Quais as metas para um futuro próximo? Quais as atividade planeadas, tendo em conta a nova Exortação Apostólica?

O secretariado Diocesano da família tem procurado animar e coordenar a Pastoral Familiar da Diocese que é responsabilidade de toda a comunidade eclesial, isto é, não esgotamos, nem pouco mais ou menos toda a pastoral familiar até porque a ação pastoral familiar diz respeito a toda a comunidade, é uma ação transversal a toda a vida da Igreja. De facto, a grande protagonista é a mesma Igreja. O Secretariado tem procurado animar e dinamizar esta vida pastoral sobretudo através de duas grandes ações : A Jornada da Família com caráter formativo e de reflexão e o Dia da Família de tipo mais celebrativo e lúdico. Procuramos também fazer alguma coordenação de outras estruturas ligadas à pastoral familiar, como sejam CPM, ENS e outros.

Temos uma grande meta à qual ainda não chegámos mas da qual não queremos desistir que é a da constituição de pequenas equipas da Pastoral Familiar pelo menos a nível Arciprestal e continuar um trabalho de acompanhamento onde formos solicitados.

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