Fundamentação cristã da Ecologia

A - A Ecologia

O termo Ecologia deriva da palavra grega oikos, que significa casa, morada. A Ecologia é então uma disciplina que versa sobre como é que o homem pode viver na natureza e no mundo como em casa sua. O que implica também perceber como é que pode tratar essas realidades como a sua casa.

B – A missão do homem em Génesis 2

A tarefa do homem na terra, segundo este relato da criação, é a de a cultivar e guardar. Ou seja, é-lhe proposta uma acção em prol do jardim e não fechada à volta do próprio homem. É curioso reparar que, no início do texto, a chuva ainda não tinha vindo porque não serviria para nada, já que ainda não existia o homem para dar uso a essa chuva em favor da terra. Claro que cultivando a terra o homem vai também beneficiar com esse trabalho, mas é óbvio que o cultivo teria de ser visto em função dessa outra tarefa que é guardar a terra. Resulta daqui que o homem não pode usar da terra de modo a abusar, a fazer um mau uso dela, ou então não estaria a guardá-la, o que seria falhar na missão que lhe tinha sido dada. [E que era tão importante que, sem o homem, Deus ainda não tinha posto em movimento a dinâmica da vida sobre o planeta, visto que ainda não havia quem tirasse proveito dela em favor do cultivo da terra.]

C – A missão do homem em Génesis 1

1. Uma complexidade crescente na criação até chegar ao homem
Ao contrário de Gn 2, aqui o homem é a última obra criativa de Deus. Em Gn 2, Deus começa a criação por aquilo que mais quer: o homem. Só depois vai criar a terra para o colocar. Em Gn 1, a lógica é a mesma, mas a estratégia diversa: o que Deus mais quer, o homem, é a última coisa que cria. Antes vai formar a terra e toda a exuberância de vida que comporta, para depois criar o homem e pô-lo lá, como o creme sobre o bolo. (Não a cereja cristalizada, como veremos adiante…) A leitura de Gn 1, deixa-nos perceber que a criação ali descrita é uma tentativa racional para compreender como é que o mundo está organizado. Na verdade Deus cria separando e a separação é princípio de ciência. (Ex: “As árvores dividem-se em dois grupos: as que têm folha perene e as que têm folha caduca”. Ou: “Há dois tipos de animais: os que comem carne e os que se alimentam de vegetais”.) Nos 1º, 2º, 3º e 4º dias Deus põe ordem no caos, separando realidades. E nos restantes dias (também na segunda metade do 3º) Deus cria segundo as suas espécies, ou seja, não é uma criação monolítica, há divisões, particularidades que podem ser percebidas. Neste caminho intelectual, Deus separa a luz das trevas (1º dia), as águas superiores das inferiores (2º dia), a água da terra, e depois cria os vegetais segundo as suas espécies (3º dia), o dia da noite (4º dia). Se considerarmos que , para a Bíblia, vida é só a vida animal, então no limiar do 5º dia ainda não há vida. É o próximo passo: vida na água e no ar, segundo as suas espécies. E agora a tarefa de Deus no 6º dia é criar a vida na terra firme, que ainda não a tinha. Para os animais fá-lo segundo as suas espécies. Chegou a vez do homem, a última obra criativa de Deus. O texto sugere com muita força uma criação feita para o homem, mas veremos que tem condições.

2. O homem é criado à imagem e semelhança de Deus
E isto é uma originalidade do homem. De facto é o único que beneficia de tal privilégio. O que significa? Seguramente que o homem – tal como Deus – é o único com capacidade para perceber a criação. É a única obra que Deus criou que pode compreender o que está escrito em Gn 1,.

3. Para dominar
Agora não se fala de cultivar e guardar, mas de dominar. E esta mudança de verbos que exprimem a função do homem na terra pode levantar algumas confusões. É que, na nossa linguagem, dominar significa exercer o domínio [de dominus (= senhor)], a autoridade do senhor, do dono. Contudo vamos já ver que este dono é Deus e não o homem e que, portanto, este domínio é para ser exercido em nome de outrem, em nome do verdadeiro Senhor e não do homem.

4. A cereja no bolo da criação: o sábado
O sétimo dia traz aqui algo de substancialmente novo: a obrigação de haver um dia em que não se deve trabalhar. (É bom compreender isto face ao que o povo hebreu já praticava na época em que este texto é composto: o sábado, o sétimo dia, vivido como um dia diferente, feito para não trabalhar a fim de haver tempo para louvar o Criador. A azáfama do quotidiano já naqueles dias impedia as pessoas de poderem parar e terem tempo para se encontrarem com Deus. Pois bem, não há desculpas, têm o sábado, um dia de louvor e de reencontro com o Autor da vida.) Ora se o homem é a última obra criada, o sétimo dia é a última palavra criativa de Deus E tem honras que o homem não tem. É santificado! Significa que é o sábado que dá sentido a toda a criação, que sem este dia vivido especialmente para o Senhor, todas as outras obras criativas, por mais bonitas que sejam, estão vazias. O sétimo dia serve para o homem parar o seu trabalho e contemplar o Criador a partir das Suas obras. Isto equivale a reconduzir a Ele tudo o que existe, equivale a reconhecer em Deus o senhorio da criação. Então estamos agora em condições de perceber que tipo de domínio o homem deve ter sobre a natureza: o de velar pelos interesses do verdadeiro dono e o de agir em Seu nome. Sem o sábado o homem correria o risco de se apropriar da criação, de perder o sentido de tudo o que existe em seu proveito pessoal.
D – Conclusão
Recapitulando o percurso que fomos traçando, vimos que a Bíblia – em Gn 2, - apresenta o homem com a tarefa de cultivar e guardar a terra, o que implica valorizá-la e ter cuidado com ela. Depois – em Gn 1, - dá um passo de gigante, mostrando o homem como o cume da complexidade da criação, a única criatura com capacidade de a compreender e por isso com a tarefa de a dominar. Só que esse domínio – pelo sábado – terá de ser feito reconduzindo ao Criador todo o seu trabalho, o que é dizer, encontrando Deus no trato com as obras da criação. Implica portanto o agir na natureza de acordo com a lógica do seu “dono”, Deus.

Carlos Azevedo, sj
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