Especial Laudato Si

Especial Laudato Si (14)

O Papa Francisco define como «indispensável um consenso mundial que leve, por exemplo, a programar uma agricultura sustentável e diversificada, desenvolver formas de energia renováveis e pouco poluidoras».

O papa afirma que a «tecnologia baseada em combustíveis fósseis» deve ser, «progressivamente e sem demora, substituída», observa que «a política e a indústria reagem com lentidão» e que «as cimeiras mundiais sobre o meio ambiente dos últimos anos não corresponderam às expectativas».

Os progressos sobre as alterações climáticas e a redução dos gases com efeito de estufa «são, infelizmente, muito escassos», também «por causa das posições dos países que privilegiam os seus interesses nacionais sobre o bem comum global».

O papa alerta para as consequências de algumas estratégias para combater as emissões de gás que penalizam os países pobres com «pesados compromissos de redução de emissões», criando «uma nova injustiça sob a capa do cuidado do meio ambiente».

 

A - A Ecologia

O termo Ecologia deriva da palavra grega oikos, que significa casa, morada. A Ecologia é então uma disciplina que versa sobre como é que o homem pode viver na natureza e no mundo como em casa sua. O que implica também perceber como é que pode tratar essas realidades como a sua casa.

B – A missão do homem em Génesis 2

A tarefa do homem na terra, segundo este relato da criação, é a de a cultivar e guardar. Ou seja, é-lhe proposta uma acção em prol do jardim e não fechada à volta do próprio homem. É curioso reparar que, no início do texto, a chuva ainda não tinha vindo porque não serviria para nada, já que ainda não existia o homem para dar uso a essa chuva em favor da terra. Claro que cultivando a terra o homem vai também beneficiar com esse trabalho, mas é óbvio que o cultivo teria de ser visto em função dessa outra tarefa que é guardar a terra. Resulta daqui que o homem não pode usar da terra de modo a abusar, a fazer um mau uso dela, ou então não estaria a guardá-la, o que seria falhar na missão que lhe tinha sido dada. [E que era tão importante que, sem o homem, Deus ainda não tinha posto em movimento a dinâmica da vida sobre o planeta, visto que ainda não havia quem tirasse proveito dela em favor do cultivo da terra.]

C – A missão do homem em Génesis 1

1. Uma complexidade crescente na criação até chegar ao homem
Ao contrário de Gn 2, aqui o homem é a última obra criativa de Deus. Em Gn 2, Deus começa a criação por aquilo que mais quer: o homem. Só depois vai criar a terra para o colocar. Em Gn 1, a lógica é a mesma, mas a estratégia diversa: o que Deus mais quer, o homem, é a última coisa que cria. Antes vai formar a terra e toda a exuberância de vida que comporta, para depois criar o homem e pô-lo lá, como o creme sobre o bolo. (Não a cereja cristalizada, como veremos adiante…) A leitura de Gn 1, deixa-nos perceber que a criação ali descrita é uma tentativa racional para compreender como é que o mundo está organizado. Na verdade Deus cria separando e a separação é princípio de ciência. (Ex: “As árvores dividem-se em dois grupos: as que têm folha perene e as que têm folha caduca”. Ou: “Há dois tipos de animais: os que comem carne e os que se alimentam de vegetais”.) Nos 1º, 2º, 3º e 4º dias Deus põe ordem no caos, separando realidades. E nos restantes dias (também na segunda metade do 3º) Deus cria segundo as suas espécies, ou seja, não é uma criação monolítica, há divisões, particularidades que podem ser percebidas. Neste caminho intelectual, Deus separa a luz das trevas (1º dia), as águas superiores das inferiores (2º dia), a água da terra, e depois cria os vegetais segundo as suas espécies (3º dia), o dia da noite (4º dia). Se considerarmos que , para a Bíblia, vida é só a vida animal, então no limiar do 5º dia ainda não há vida. É o próximo passo: vida na água e no ar, segundo as suas espécies. E agora a tarefa de Deus no 6º dia é criar a vida na terra firme, que ainda não a tinha. Para os animais fá-lo segundo as suas espécies. Chegou a vez do homem, a última obra criativa de Deus. O texto sugere com muita força uma criação feita para o homem, mas veremos que tem condições.

2. O homem é criado à imagem e semelhança de Deus
E isto é uma originalidade do homem. De facto é o único que beneficia de tal privilégio. O que significa? Seguramente que o homem – tal como Deus – é o único com capacidade para perceber a criação. É a única obra que Deus criou que pode compreender o que está escrito em Gn 1,.

3. Para dominar
Agora não se fala de cultivar e guardar, mas de dominar. E esta mudança de verbos que exprimem a função do homem na terra pode levantar algumas confusões. É que, na nossa linguagem, dominar significa exercer o domínio [de dominus (= senhor)], a autoridade do senhor, do dono. Contudo vamos já ver que este dono é Deus e não o homem e que, portanto, este domínio é para ser exercido em nome de outrem, em nome do verdadeiro Senhor e não do homem.

4. A cereja no bolo da criação: o sábado
O sétimo dia traz aqui algo de substancialmente novo: a obrigação de haver um dia em que não se deve trabalhar. (É bom compreender isto face ao que o povo hebreu já praticava na época em que este texto é composto: o sábado, o sétimo dia, vivido como um dia diferente, feito para não trabalhar a fim de haver tempo para louvar o Criador. A azáfama do quotidiano já naqueles dias impedia as pessoas de poderem parar e terem tempo para se encontrarem com Deus. Pois bem, não há desculpas, têm o sábado, um dia de louvor e de reencontro com o Autor da vida.) Ora se o homem é a última obra criada, o sétimo dia é a última palavra criativa de Deus E tem honras que o homem não tem. É santificado! Significa que é o sábado que dá sentido a toda a criação, que sem este dia vivido especialmente para o Senhor, todas as outras obras criativas, por mais bonitas que sejam, estão vazias. O sétimo dia serve para o homem parar o seu trabalho e contemplar o Criador a partir das Suas obras. Isto equivale a reconduzir a Ele tudo o que existe, equivale a reconhecer em Deus o senhorio da criação. Então estamos agora em condições de perceber que tipo de domínio o homem deve ter sobre a natureza: o de velar pelos interesses do verdadeiro dono e o de agir em Seu nome. Sem o sábado o homem correria o risco de se apropriar da criação, de perder o sentido de tudo o que existe em seu proveito pessoal.
D – Conclusão
Recapitulando o percurso que fomos traçando, vimos que a Bíblia – em Gn 2, - apresenta o homem com a tarefa de cultivar e guardar a terra, o que implica valorizá-la e ter cuidado com ela. Depois – em Gn 1, - dá um passo de gigante, mostrando o homem como o cume da complexidade da criação, a única criatura com capacidade de a compreender e por isso com a tarefa de a dominar. Só que esse domínio – pelo sábado – terá de ser feito reconduzindo ao Criador todo o seu trabalho, o que é dizer, encontrando Deus no trato com as obras da criação. Implica portanto o agir na natureza de acordo com a lógica do seu “dono”, Deus.

Carlos Azevedo, sj

Senhor, nosso Deus, como é admirável o vosso nome em toda a terra! A vossa majestade está acima dos céus.

Da boca das crianças e meninos de peito sai um louvor que confunde os vossos adversários e reduz ao silêncio os inimigos rebeldes.

Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que lá colocastes, que é o homem para que Vos lembreis dele, o filho do homem para dele Vos ocupardes?

Fizestes dele quase um ser divino, de honra e glória o coroastes; destes-lhe poder sobre a obra das vossas mãos. Tudo submetestes a seus pés:

Ovelhas e bois, todos os rebanhos, e até os animais selvagens, as aves do céu e os peixes do mar, tudo o que se move nos oceanos.

Senhor, nosso Deus, como é admirável o vosso nome em toda a terra!

“Sabíeis vós que as árvores falam? Pois falam. Falam entre elas, e hão-de, se as escutardes, falar-vos a vós.”

Esta é uma mensagem que faz parte de um discurso de Tatanga Mani, índio Stoney (Canadá) transcrito no livro “A Fala do Índio”.


Face à evidência da dimensão global dos problemas ambientais e da importância da componente social nos mesmos, a simplicidade da citação anterior, convidando à escuta e à observação para a compreensão da natureza, constitui, em sociedades de culturas tão variadas, uma base conceptual adequada para desenvolver a componente ecológica do mundo.

A Terra não é binómio natureza-cultura, é um todo unificado, onde os elementos que a constituem se interrelacionam e interatuam.

"Laudato si , mi Signore - Louvado sejas, meu Senhor", cantava São Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços”.

Inicia de forma bela o Papa Francisco a Carta Encíclica Laudato Si, convidando toda a “família humana” a refletir e dialogar acerca do futuro do planeta, da “nossa casa comum”, procurando um “desenvolvimento sustentável e integral”.
Como afirma o Santo Padre, “a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma”.

O traçar de uma nova filosofia em termos ambientais, deverá passar pela reflexão acerca da preservação do nosso ambiente, considerando-o como um elemento crucial e extremamente valorativo da vida humana.
Já não se trata apenas da imensidade de espécies que o homem teve oportunidade de conhecer e que entretanto viu desaparecer em períodos cada vez mais curtos, trata-se do próprio Homem e de tudo aquilo que constitui o seu património natural e construído/cultural.

A Encíclica sublinha a necessidade de investir na formação para uma ecologia integral, por forma a perceber que o ambiente é um dom de Deus, uma herança comum que se deve administrar e não destruir.

Neste caminho de “conversão ecológica”, os cristãos devem “compreender que a sua responsabilidade com a criação e o seu dever para com a natureza e o Criador, são uma parte essencial da sua fé”.

Nesta perspetiva, os ensinamentos devem focar-se na pessoa a educar preparando-a para viver de forma equilibrada e harmoniosa com o ambiente, privilegiando o saber ser.

A consciencialização desta sabedoria, deverá conduzir a resultados concretos na esfera dos comportamentos, com carácter de continuidade e acessível a todos. Só assim, poderemos sentir, como se lê na Encíclica, que “temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo e que vale a pena sermos bons e honestos”.

A este propósito, lembre-se o que dizia Stephano Cavagna, pioneiro na área de educação ambiental, “os bens mais preciosos que podemos ter, são o tempo e o silêncio.

O silêncio está ligado à capacidade de contemplar, observar, gerar. Uma pessoa que tenha tempo e silêncio, é poderosa. Mas estes valores, não devem ser utilizados para o interesse pessoal.

É importante que tenhamos sempre uma perspetiva global que nos posiciona corretamente face ao mundo.

Esta perspetiva, manifesta-se em coisas pequenas, como observar um charco e renunciar ver os animais que nele se ocultam para evitar perturbá-los. Esta renúncia é uma grande capacidade.
É um modo de sermos humildes perante o mundo, no sentido de percebermos qual é o nosso lugar nele”.

Valores comos estes, precisam de ser desenvolvidos, originários do prazer de poder contemplar, sem perturbar, do sentir-se parte de um todo, belo e equilibrado.

Como seria bom, se como diz o Papa Francisco, conseguíssemos reconhecer que “cada criatura é objeto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo”.

Que o Papa Francisco escreva uma encíclica sobre ecologia não é tão surpreendente como poderia parecer à primeira vista: é uma consequência lógica de décadas de reflexão sobre duas problemáticas – a social e a ambiental – que não podem já desligar-se e que precisam de ser abordadas de forma conjunta. Com Laudato Si’ – que significa  “Louvado sejas”, recordando o início do Cântico das criaturas de Francisco de Assis – a Igreja Católica responde aos novos sinais dos tempos para oferecer uma palavra, no horizonte da esperança cristã, sobre as problemáticas socio-ambientais que caracterizam a nossa época.

 

Não esperemos desta encíclica novas análises científicas, detalhadas receitas económicas ou propostas políticas concretas para solucionar o complexo conjunto de problemas relacionados com a pobreza extrema, a desigualdade económica, a crise global de água, a perda acelerada de biodiversidade, a contaminação, a desflorestação, o esgotamento dos recursos naturais ou o aquecimento global. Porém, em continuidade com a rica tradição da Doutrina Social da Igreja iniciada por Leão XIII nos finais do século XIX, Francisco oferece uma contribuição original. Uma contribuição para um debate que precisa de uma visão “sapiencial” que supere a racionalidade técnica, de um espaço de diálogo que articule as distintas disciplinas em jogo e de uma mobilização social que as grandes forças internacionais não conseguiram conduzir.


São várias as chaves de leitura de Laudato Si’ que merecem ser destacadas. Em primeiro lugar, uma denúncia profética da injustiça social vinculada aos processos de degradação do meio ambiente. A chamada de atenção à “injustiça ambiental” sofrida por aqueles que não estão na origem do problema, bem como a estreita relação entre a ecologia humana e a ecologia natural, são temas imprescindíveis para entender a complexidade do problema ecológico.

 

Em segundo lugar, uma proposta ascética capaz de mobilizar –especialmente, aqueles que já temos o suficiente – a lutar contra o esbanjamento e a adoptar uma vida sóbria, honrada e solidária com os que menos têm e com toda a criação.

 

Em terceiro lugar, um olhar contemplativo e “sacramental”, capaz de desfrutar da beleza da criação, de descobrir um valor intrínseco em toda a criação e de superar a visão utilitarista e técnica que domina o nosso mundo.

 

Em quarto lugar, uma visão sapiencial capaz de superar a separação de âmbitos por parte das distintas ciências e a visão reducionista do homem como consumidor, do bem-estar como acumulação material e da economia como busca constante de crescimento. Por fim, um apelo à mudança pessoal e institucional mobilizada pela fé, alimentada pela espiritualidade e alicerçada nos princípios do destino universal dos bens, da prioridade do bem comum e no princípio de precaução.


Não procuremos em Laudato Si’ um roteiro detalhado com soluções aos grandes desafios eco-sociais da nossa época. Procuremos, isso sim, um olhar lúcido e um convite ao diálogo construtivo e à acção comprometida.

Jaime Tatay, sj