Há muito anunciada e ansiosamente esperada pela opinião pública em geral, esta encíclica convida ao exercício da responsabilidade humana quanto ao uso dos bens criados. Começa com a expressão de S. Francisco sobre o louvor das criaturas – Laudato si.
Depois de, na introdução, lembrar os diversos pronunciamentos sobre o mesmo assunto vindos do magistério da Igreja nas últimas décadas, desde João XXIII a Bento XVI, passando por Paulo VI e João Paulo II, organiza-se em 6 capítulos, distribuídos por 190 páginas.
Nela, o Papa pretende fazer connosco um percurso de atenção aos bens criados que, de facto, existem para o maior bem da existência humana. É um percurso que começa pela chamada de atenção para as agressões que, de facto, continuam a fazer-se “à nossa casa comum” ou irmã terra.
Toca na questão da água, da perda da biodiversidade e sobretudo a deterioração da vida humana e a degradação social.
Toca na ferida da crescente desigualdade planetária assim como na debilidade das reações dos responsáveis políticos, culturais e sociais a situações como estas, “que provocam os gemidos da irmã terra”.
Apela ao evangelho da criação (cap. II) e diz que o universo deve ser entendido não como pura natureza, mas sobretudo como “projeto de Deus”. A comunhão universal e o destino comum dos bens são dois valores essenciais para a vida humana que têm de definir as relações ecológicas.
A raiz da crise ecológica essa está, antes de mais, nas pessoas humanas e no estilo das suas relações (cap. III). Perante o facto da invasão das novas tecnologias fortemente globalizadas que dominam cada vez mais a economia e a política (nº 109), impõe-se a necessidade de defender o valor fundamental do trabalho humano.
Como a encíclica afirma, “não se deve substituir sempre o trabalho humano pelo progresso tecnológico. Quando assim se faz nega-se a própria humanidade” (nº 128).
Coloca frontalmente a questão dos organismos geneticamente modificados, no mundo animal e vegetal (nº 136) para se centrar na ecologia que integra as dimensões humana e social (cap. IV). E aqui alarga o horizonte das questões ecológicas, falando da ecologia ambiental, mas também económica, social e cultural.
O que está em causa numa ecologia corretamente entendida é, por um lado, levar a sério o princípio do destino universal dos bens, ou seja que os bens são criados para todos, incluindo as gerações que ainda não viram a luz do dia. E sobre esta matéria, a encíclica, no nº 159, cita a Conferência Episcopal Portuguesa, na sua carta responsabilidade solidária pelo bem comum (ano de 2003), quando afirma: “O ambiente situa-se na lógica do receber. É um bem que todas as gerações recebem e devem transmitir às gerações futuras”.
Considera esta uma afirmação que fundamenta a ecologia integral. Como grandes linhas de orientação e ação (cap. V), defende o diálogo sobre o ambiente na política internacional e suas consequências nas políticas nacionais e locais. Defende o diálogo entre política e economia, para se conseguir a plena realização humana. Não esquece a componente espiritual da atitude ecológica (cap. VI). E aqui aponta para a necessidade de todos evoluirmos para novos estilos de vida que preconizem contenção no consumo.
Defende a necessidade da aliança entre humanidade e ambiente, falando mesmo numa necessária conversão ecológica. E termina colocando o cuidado da natureza sob a proteção de Maria. Ela que cuidou de Jesus, agora precisamos que cuide “deste mundo ferido” (nº 243).
A última palavra da encíclica é uma oração pela nossa irmã terra, essa casa comum sem a qual não podemos viver.
Esta encíclica é um forte convite ao exercício da nossa responsabilidade sobre os bens criados, a começar pelo bem fundamental que a própria natureza humana é em si mesma.
