Cuidar os pobres, cuidar a criação

Que o Papa Francisco escreva uma encíclica sobre ecologia não é tão surpreendente como poderia parecer à primeira vista: é uma consequência lógica de décadas de reflexão sobre duas problemáticas – a social e a ambiental – que não podem já desligar-se e que precisam de ser abordadas de forma conjunta. Com Laudato Si’ – que significa  “Louvado sejas”, recordando o início do Cântico das criaturas de Francisco de Assis – a Igreja Católica responde aos novos sinais dos tempos para oferecer uma palavra, no horizonte da esperança cristã, sobre as problemáticas socio-ambientais que caracterizam a nossa época.

 

Não esperemos desta encíclica novas análises científicas, detalhadas receitas económicas ou propostas políticas concretas para solucionar o complexo conjunto de problemas relacionados com a pobreza extrema, a desigualdade económica, a crise global de água, a perda acelerada de biodiversidade, a contaminação, a desflorestação, o esgotamento dos recursos naturais ou o aquecimento global. Porém, em continuidade com a rica tradição da Doutrina Social da Igreja iniciada por Leão XIII nos finais do século XIX, Francisco oferece uma contribuição original. Uma contribuição para um debate que precisa de uma visão “sapiencial” que supere a racionalidade técnica, de um espaço de diálogo que articule as distintas disciplinas em jogo e de uma mobilização social que as grandes forças internacionais não conseguiram conduzir.


São várias as chaves de leitura de Laudato Si’ que merecem ser destacadas. Em primeiro lugar, uma denúncia profética da injustiça social vinculada aos processos de degradação do meio ambiente. A chamada de atenção à “injustiça ambiental” sofrida por aqueles que não estão na origem do problema, bem como a estreita relação entre a ecologia humana e a ecologia natural, são temas imprescindíveis para entender a complexidade do problema ecológico.

 

Em segundo lugar, uma proposta ascética capaz de mobilizar –especialmente, aqueles que já temos o suficiente – a lutar contra o esbanjamento e a adoptar uma vida sóbria, honrada e solidária com os que menos têm e com toda a criação.

 

Em terceiro lugar, um olhar contemplativo e “sacramental”, capaz de desfrutar da beleza da criação, de descobrir um valor intrínseco em toda a criação e de superar a visão utilitarista e técnica que domina o nosso mundo.

 

Em quarto lugar, uma visão sapiencial capaz de superar a separação de âmbitos por parte das distintas ciências e a visão reducionista do homem como consumidor, do bem-estar como acumulação material e da economia como busca constante de crescimento. Por fim, um apelo à mudança pessoal e institucional mobilizada pela fé, alimentada pela espiritualidade e alicerçada nos princípios do destino universal dos bens, da prioridade do bem comum e no princípio de precaução.


Não procuremos em Laudato Si’ um roteiro detalhado com soluções aos grandes desafios eco-sociais da nossa época. Procuremos, isso sim, um olhar lúcido e um convite ao diálogo construtivo e à acção comprometida.

Jaime Tatay, sj
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