O cuidar da “nossa casa comum”, a pessoa como objetivo

“Sabíeis vós que as árvores falam? Pois falam. Falam entre elas, e hão-de, se as escutardes, falar-vos a vós.”

Esta é uma mensagem que faz parte de um discurso de Tatanga Mani, índio Stoney (Canadá) transcrito no livro “A Fala do Índio”.


Face à evidência da dimensão global dos problemas ambientais e da importância da componente social nos mesmos, a simplicidade da citação anterior, convidando à escuta e à observação para a compreensão da natureza, constitui, em sociedades de culturas tão variadas, uma base conceptual adequada para desenvolver a componente ecológica do mundo.

A Terra não é binómio natureza-cultura, é um todo unificado, onde os elementos que a constituem se interrelacionam e interatuam.

"Laudato si , mi Signore - Louvado sejas, meu Senhor", cantava São Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços”.

Inicia de forma bela o Papa Francisco a Carta Encíclica Laudato Si, convidando toda a “família humana” a refletir e dialogar acerca do futuro do planeta, da “nossa casa comum”, procurando um “desenvolvimento sustentável e integral”.
Como afirma o Santo Padre, “a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma”.

O traçar de uma nova filosofia em termos ambientais, deverá passar pela reflexão acerca da preservação do nosso ambiente, considerando-o como um elemento crucial e extremamente valorativo da vida humana.
Já não se trata apenas da imensidade de espécies que o homem teve oportunidade de conhecer e que entretanto viu desaparecer em períodos cada vez mais curtos, trata-se do próprio Homem e de tudo aquilo que constitui o seu património natural e construído/cultural.

A Encíclica sublinha a necessidade de investir na formação para uma ecologia integral, por forma a perceber que o ambiente é um dom de Deus, uma herança comum que se deve administrar e não destruir.

Neste caminho de “conversão ecológica”, os cristãos devem “compreender que a sua responsabilidade com a criação e o seu dever para com a natureza e o Criador, são uma parte essencial da sua fé”.

Nesta perspetiva, os ensinamentos devem focar-se na pessoa a educar preparando-a para viver de forma equilibrada e harmoniosa com o ambiente, privilegiando o saber ser.

A consciencialização desta sabedoria, deverá conduzir a resultados concretos na esfera dos comportamentos, com carácter de continuidade e acessível a todos. Só assim, poderemos sentir, como se lê na Encíclica, que “temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo e que vale a pena sermos bons e honestos”.

A este propósito, lembre-se o que dizia Stephano Cavagna, pioneiro na área de educação ambiental, “os bens mais preciosos que podemos ter, são o tempo e o silêncio.

O silêncio está ligado à capacidade de contemplar, observar, gerar. Uma pessoa que tenha tempo e silêncio, é poderosa. Mas estes valores, não devem ser utilizados para o interesse pessoal.

É importante que tenhamos sempre uma perspetiva global que nos posiciona corretamente face ao mundo.

Esta perspetiva, manifesta-se em coisas pequenas, como observar um charco e renunciar ver os animais que nele se ocultam para evitar perturbá-los. Esta renúncia é uma grande capacidade.
É um modo de sermos humildes perante o mundo, no sentido de percebermos qual é o nosso lugar nele”.

Valores comos estes, precisam de ser desenvolvidos, originários do prazer de poder contemplar, sem perturbar, do sentir-se parte de um todo, belo e equilibrado.

Como seria bom, se como diz o Papa Francisco, conseguíssemos reconhecer que “cada criatura é objeto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo”.

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