Papa pede que ouça o grito da Terra e dos mais pobres

Aura Miguel
é jornalista da Rádio Renascença. licenciada em Direito, pela Universidade Católica, tem uma pós-graduação em Ciências da Informação, pela mesma universidade. Jornalista desde 1982, colaborou nos jornais A Tarde e Semanário. Atualmente, e desde 1985, é editora de assuntos religiosos na Rádio Renascença.  É a única portuguesa acreditada na Sala de Imprensa da Santa Sé que acompanha regularmente o Papa nas suas viagens apostólicas.
Aura Miguel tem já publicada na PRINCIPIA a obra O Segredo que Conduz o Papa - A Experiência de Fátima no Pontificado de João Paulo II (2002), agora reeditada na marca Lucerna. Com mais de 36.000 exemplares vendidos em Portugal, O Segredo que Conduz o Papa conta já com traduções em francês, alemão, italiano, espanhol, polaco e russo. Em Setembro de 2003 publicou também na Lucerna o bestseller Porque Viajas Tanto que relata diversos episódios do seu convívio com o Papa João Paulo II durante o seu Pontificado.
Em 2002, ainda durante o pontificado de João Paulo II, foi escolhida entre os jornalistas convidados pelo Santo Padre para escrever uma das catorze estações da Via Sacra de Sexta-Feira Santa, presidida pelo Papa no Coliseu de Roma.

 

Na primeira encíclica da Igreja Católica inteiramente dedicada a questões ecológicas, o Papa diz que há um "consenso científico muito consistente" sobre alterações climáticas. "Estamos perante um preocupante aquecimento" da Terra.
A "verdadeira abordagem ecológica é sempre uma abordagem social que deve integrar a justiça nas discussões sobre o ambiente, para se ouvir quer o grito da Terra, quer o grito dos pobres". Na primeira encíclica de um Papa dedicada ao ambiente, Francisco diz que o mundo não pode ignorar as alterações climáticas sobre as quais há um "consenso científico muito consistente".

 


Para Francisco, a preocupação ecológica não pode ser separada da preocupação pelos mais pobres, marginalizados e fracos. O Papa lamenta ainda que nos debates políticos e económicos o tema social seja quase sempre acessório, porque os media, os comentadores e centros de poder vivem afastados da pobreza e denuncia certas análises parciais e discursos "verdes" que passam ao lado da realidade dos pobres.
Ainda a encíclica não tinha sido lançada e já algumas vozes estavam a manifestar o seu descontentamento pelo facto de um líder religioso se estar a meter num campo que consideram ser reserva de cientistas. Entre os mais críticos incluem-se cientistas e também alguns políticos conservadores, sobretudo nos EUA, céticos quanto às teorias das alterações climáticas.

 


O Papa fala de facto das alterações climáticas, sobre as quais diz existir um "consenso científico muito consistente" que indica que "estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático". "Nas últimas décadas, este aquecimento foi acompanhado por uma elevação constante do nível do mar, sendo difícil não o relacionar ainda com o aumento de acontecimentos meteorológicos extremos, embora não se possa atribuir uma causa cientificamente determinada a cada fenómeno particular."

 


Para Francisco, a "cultura do descarte" aplicada ao ambiente tem consequências negativas para a humanidade. “É previsível que, perante o esgotamento de alguns recursos, se vá criando um cenário favorável para novas guerras, disfarçadas sob nobres reivindicações", diz Francisco, lamentando ainda que as guerras que já existem causem "sempre danos graves ao meio ambiente e à riqueza cultural dos povos, e os riscos avolumam-se quando se pensa nas armas nucleares e nas armas biológicas".

 


A encíclica "Laudato Si" ("Louvado sejas" em italiano antigo, uma referência a um cântico de São Francisco de Assis de louvor a Deus pela criação) é a primeira escrita integralmente pelo Papa Francisco, uma vez que a encíclica "Lumen Fidei", lançada pouco depois da sua eleição, foi iniciada por Bento XVI.
Esta é também a primeira encíclica da Igreja Católica dedicada unicamente a questões ecológicas, pese embora os cuidados com o ambiente tenham sido preocupação presente também no pontificado de outros Papas, como Bento XVI e João Paulo II.

 


O Papa não teme entrar em polémicas. Francisco ataca as políticas de controlo de população e os que, "em vez de resolverem os problemas dos pobres, se limitam a propor a redução da natalidade". Francisco tem palavras duras também para as pressões internacionais que impõem estas medidas "aos países em vias de desenvolvimento e condicionam as ajudas económicas a determinadas políticas de 'saúde reprodutiva'", um chavão que significa o acesso ao aborto e à contraceção.

 


Francisco denuncia que "pôr as culpas no aumento demográfico, e não no consumismo desmesurado só de alguns, é não querer enfrentar os problemas" e legitimar um modelo distributivo que só favorece uma minoria. Mas as críticas não ficam por aí. Para o Papa, não faz qualquer sentido que "os que lutam contra o tráfico de animais em risco de extinção" sejam "indiferentes ao tráfico de seres humanos", nem é compatível "a defesa da natureza com a justificação do aborto".

 


Quando Francisco pede uma "real conversão ecológica", está por isso a dirigir-se tanto aos que encaram as ameaças de alterações climáticas com ceticismo ou indiferença como aos que, no entender do Papa, colocam a defesa da natureza acima do valor da vida humana. 

 


O Papa não termina a sua encíclica sem fazer algumas recomendações aos católicos: desde questões práticas a espirituais, passando pela necessidade de maior compromisso dos cidadãos com o processo político.

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