Que tipo de mundo queremos deixar?

Ana Fonseca
é oriunda de Fornos de Algodres.  É licenciada em biologia, trabalha atualmente no CISE - Centro de Interpretação da Serra da Estrela, pertencente ao Município de Seia, onde desenvolve atividades de interpretação de natureza e animação e educação ambiental.  É catequista e animadora do grupo de jovens Sal da Terra (Juventude Mariana Vicentina), na paróquia de Fornos de Algodres. 

 

Há cerca de um ano, quando foi apresentada a encíclica Laudato Si – sobre o cuidado do bem comum, fiquei de imediato de “antenas no ar”. Senti uma imensa curiosidade por descobrir que mensagem estava por detrás deste texto, um tema pelo qual, como cristã e como bióloga, sempre me interessei de forma apaixonante.

 


«Que tipo de mundo queremos deixar a quem nos vai suceder, às crianças que estão a crescer?» (LS 160). Esta é uma pergunta que, por outras palavras, eu abordo relativamente ao tema “desenvolvimento sustentável” e em conversa com alguém, ou quando vou a uma escola falar com os alunos. É também uma pergunta chave do Papa Francisco e na qual, penso eu, assenta toda a encíclica.

 


Da minha área de formação vem este cuidado pela natureza e ambiente e, como cristã, desde há muito estranho o facto de os cristãos não serem os primeiros a defender e a lutar por um meio ambiente mais limpo, mais digno, mais cuidado, ou seja, que nem sempre sejam os primeiros a cuidar da Criação. Porque Deus, não nos criou isolados. Como refere o Papa Francisco “O conjunto do Universo, com as suas múltiplas relações, mostra melhor a riqueza inesgotável de Deus (LS 86), ou então, “Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do Seu carinho sem medida por nós” (LS 84). Com este sentimento, pergunto-me: como não cuidar da criação? Ninguém tem o direito de alterar, destruir ou ignorar a destruição da criação de Deus: o solo, a água, as rochas, qualquer ser vivo. Com isto, não podemos descurar ou deixar para segundo plano o respeito pela vida e pela dignidade humana. Neste sentido, o Papa Francisco alerta, também, para o facto de muitas pessoas se indignarem com o sofrimento de um animal, mas se esquecerem do pobre que precisa do nosso apoio, do nosso carinho, da nossa preocupação; se esquecerem de tantas pessoas que não têm uma vida digna.

 


Dirigida a crentes e a não crentes, com este texto o Papa Francisco alerta-nos, sobretudo, para a importância de uma “ecologia integral, que inclua claramente as dimensões humanas e sociais” (LS 137) de pensarmos na ecologia e no ambiente a partir da justiça. Porque ao ser humano é intrínseca a economia, a política, a cultura, a ciência, é importante que tudo isto seja integrado tanto nas grandes decisões nacionais e mundiais, como no nosso dia-a-dia.
Com esta encíclica somos alertados para a necessidade de diálogo, tantas vezes esquecido na sociedade atual e fundamental para “sair da espiral da autodestruição onde nos estamos a afundar” (LS 163).

 


Diálogo sobre o meio ambiente, na política internacional; diálogo nas novas políticas nacionais e locais; diálogo e transparência nos processos decisórios; diálogo entre política e economia para a plenitude humana; diálogo entre as religiões e as ciências. Para haver mudança, é a humanidade que tem de mudar, diz Francisco. É necessário tomar consciência de uma origem comum.

 


Façamos o nosso exame de consciência: como cuido eu da Criação? O cuidado da casa comum não cabe apenas aos ambientalistas e ecologistas, ou aos decisores económicos e políticos. O cuidado da casa comum depende de cada um de nós, da nossa tomada de consciência para a necessidade de cuidar de nós e do que nos rodeia de forma integral, respeitando os outros e tudo o que, connosco, integra o mundo que nos rodeia.

 

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