Francisco dá força de encíclica à preocupação da Igreja com o ambiente

Filipe d’Avillez,
nasceu em 1980, casado e pai de quatro filhos. Formou-se em Relações Internacionais pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e tem um mestrado em História e Teologia das Religiões, pela Universidade Católica.
Trabalhou durante alguns anos na revista Os Meus Livros, antes de integrar a equipa da Renascença, onde trabalha sobretudo para a equipa do online, com destaque para a informação religiosa.
Em 2015 publicou o livro “Que Fazes aí Fechada”, com entrevistas a consagradas de diferentes ordens religiosas. Tem ainda publicado um livro juvenil chamado “As Aventuras de Cosminho”.

 

O documento do Papa Francisco sobre o ambiente e as alterações climáticas, com o título "Laudato Si", constitui a primeira vez que um pontífice dedica uma encíclica inteira a este assunto. A preocupação de um Papa pelo ambiente não é novidade. Mas Francisco dá um passo importante, com a força reforçada de uma encíclica, numa longa tradição, que tem entre os seus protagonistas outros dois papas, João Paulo II e Bento XVI.
Bento XVI, que mandou colocar painéis fotovoltaicos no Vaticano e comprometeu a Santa Sé ao objetivo de se tornar o primeiro estado europeu neutro no que diz respeito a emissões de carbono, chegou a ser apelidado de "Papa Verde".

 

O Papa alemão revelou em várias ocasiões a sua preocupação com o ambiente, deixando claro que esta é uma causa inseparável de outros grandes temas de ordem moral. Bento XVI chegou mesmo a utilizar a expressão "ecologia humana", ligando o cuidado pelo meio ambiente ao cuidado pela natureza humana e fazendo a ligação à necessidade de se respeitar, tanto numa questão como na outra, pelo respeito pelo direito natural.
Na encíclica "Caritas in Veritate", Bento XVI escrevia: "Hoje, as questões relacionadas com o cuidado e a preservação do ambiente devem ter na devida consideração as problemáticas energéticas. De facto, o açambarcamento dos recursos energéticos não renováveis por parte de alguns Estados, grupos de poder e empresas constitui um grave impedimento para o desenvolvimento dos países pobres. Estes não têm os meios económicos para chegar às fontes energéticas não renováveis que existem, nem para financiar a pesquisa de fontes novas e alternativas."


O texto continua, dizendo que "a monopolização dos recursos naturais, que em muitos casos se encontram precisamente nos países pobres, gera exploração e frequentes conflitos entre as nações e dentro das mesmas. E muitas vezes estes conflitos são travados precisamente no território de tais países, com um pesado balanço em termos de mortes, destruições e maior degradação".
Bento XVI concluía: "A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro."

 

João Paulo II preocupado com efeito de estufa Já antes, João Paulo II tinha reservado palavras fortes para estas questões.

 

Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, o Papa polaco dizia que "o gradual esgotamento da camada do ozono e o consequente 'efeito de estufa' que ele provoca já atingiram dimensões críticas, por causa da crescente difusão das indústrias, das grandes concentrações urbanas e dos consumos de energia. Resíduos industriais, gases produzidos por combustíveis fósseis, desflorestação imoderada, uso de alguns tipos de herbicidas, refrigerantes e propelentes, tudo isto, como se sabe, é nocivo para a atmosfera e para o ambiente."

 

"Daí resultam múltiplas mudanças meteorológicas e atmosféricas, cujos efeitos vão desde os prejuízos para a saúde até à possível submersão, no futuro, de terras baixas", concluía o Papa.
Contudo, também João Paulo II fazia depois a ligação para assuntos vistos como prioritários para a Igreja. "Mas o índice mais profundo e mais grave das implicações morais, inseridas na problemática ecológica, é constituído pela falta de respeito pela vida, como se pode verificar em muitos comportamentos."

 

Desconfiança conservadora

À luz destes exemplos históricos apenas se pode concluir que a preocupação ambiental de Francisco não é nova. Nova será, isso sim, a forma e a ênfase, para além da atenção mediática que as suas ações têm em comparação com a dos seus antecessores.

 


Mas a insistência do Papa em entrar por temas ambientais não está a ser inteiramente pacífica. O facto de ter colaborado com instituições das Nações Unidas – uma organização com a qual a Igreja tem um historial complexo e que é vista como enorme desconfiança por fações mais conservadoras da Igreja, sobretudo em países como os Estados Unidos – e o seu entusiasmo por um tema que é visto frequentemente como uma causa de esquerda têm feito surgir várias críticas.

 


Quando o Vaticano ajudou a organizar uma cimeira sobre o ambiente, em Roma, com a presença do secretário-geral da ONU, um grupo de cientistas que discordam das teorias das alterações climáticas fizeram uma contracimeira de protesto e acusaram o Papa de estar a dar crédito a teorias que, dizem, não foram ainda provadas.

 


De igual modo, o político americano Rick Santorum, um católico conhecido pelas suas posições conservadoras em assuntos morais, disse que, embora ame muito o Papa, este devia deixar a ciência para os cientistas – esquecendo-se de que o Papa teve formação científica, nomeadamente em química, antes de entrar para o seminário.

 


Mas o que os Papas têm estado a fazer, pelo menos desde João Paulo II e com particular destaque para Bento XVI e agora Francisco, é exatamente sublinhar que questões como o cuidado pelo ambiente e os recursos naturais não são temas exclusivamente científicos, mas também profundamente morais. Isso será certamente realçado pelo Papa na sua encíclica "Laudato Si".

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