Uma Ca(u)sa Comum

Francisco Ferreira
é natural de Setúbal. Atualmente é professor no Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e membro do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade (CENSE). Foi Presidente da Quercus, uma organização não-governamental de ambiente, entre 1996 a 2001 e foi membro da direção até 2011. Tem participado em múltiplas reuniões das Nações Unidas sobre alterações climáticas e desenvolvimento sustentável. Até ao final de 2015 e após quase dez anos, foi autor e apresentador no canal de televisão pública RTP da rubrica diária “Minuto Verde”. Atualmente é o Presidente da “ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável”

 

O ano de 2015 foi fértil (e espera-se que decisivo) nos apelos e na concertação pelo cuidar desta casa comum que é o nosso planeta. A Terra tem vindo a ser explorada muito para além da sua capacidade de regeneração, isto é, os recursos que usamos, aliás de forma muito desigual, superam em mais de metade aqueles que são continuamente renovados. No fundo, é como se não conseguíssemos viver com base no nosso salário e na conta à ordem e tivéssemos de nos socorrer de poupanças (como os combustíveis fósseis, as árvores centenárias, ou os peixes de profundidade), para alimentar o consumismo diário.

 


Em maio, o Papa Francisco através da encíclica Laudato Si, iniciava um desafio que iria percorrer todo o ano. De modo assertivo, acessível e muito bem fundamentado, o Papa promovia um “diálogo com todos (e não apenas os católicos), sobre a nossa casa comum”, lançando “um convite urgente a renovar o diálogo sobre a maneira como estamos a construir o futuro do planeta”.

 


Em setembro, durante uma cimeira de três dias nas Nações Unidas em Nova Iorque, quase 200 países subscreviam uma nova agenda para o desenvolvimento para 2030, com 17 objetivos para o desenvolvimento sustentável e 169 metas, destinados não apenas aos países em desenvolvimento como haviam sido os objetivos do milénio (entre 2000 e 2015), mas incluindo também uma ação pertinente por parte dos países desenvolvidos.
Desde erradicar a pobreza, a fome, promover uma saúde e educação de qualidade, a igualdade de género, até à necessidade de protegermos a vida terrestre, marinha, alinharmos num produção e consumo sustentáveis, apostando em energias renováveis e acessíveis, salvaguardando o clima, num enquadramento de paz, justiça e de instituições eficazes assente em inúmeras parcerias que deverão ser construídas. Um desafio avassalador que se enquadrava perfeitamente no apelo lançado pelo Papa Francisco.

 


Em dezembro de 2015 ocorreu o primeiro teste à concertação conseguida em setembro – após 15 dias de intensas negociações, o Acordo de Paris sobre alterações climáticas viria a ser aprovado com metas ambiciosas – assegurar que o aquecimento da atmosfera ficará muito abaixo de 2 graus Celsius em relação à era pré-industrial., tendo aliás como objetivo 1,5 graus de aumento e conseguir um balanço neutro das emissões pelas atividades humanas dos gases responsáveis pelo aquecimento global, os chamados gases de efeito de estufa, e os sumidouros que retiram o carbono da atmosfera como as florestas.
Sabe-se que há uma grande diferença entre a teoria e a prática, e que todos estes objetivos e metas ficam sempre aquém de uma ação urgente e consequente. Haver este conjugar de vontades, é um passo, mas claramente não o suficiente.

 


O Papa Francisco, numa encíclica que faz um diagnóstico, identifica angústias, reflete sobre a relação da fé com a ecologia e faz propostas, quer à escala da sociedade e das nações, quer diretamente à ação individual. O Papa alerta para a necessidade de uma verdadeira “revolução cultural”, para uma “ecologia integral” que traduza uma saudável relação entre a natureza e a sociedade que a habita, mencionando que “também o estado de saúde das instituições duma sociedade tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana”.

 


Assim, é à escala das autarquias, dos governos, na União Europeia, nas Nações Unidas que temos de nos entender para que problemas globais tenham soluções empenhadas e universais. Porém, tal só se conseguirá construindo sociedades sustentáveis onde os estilos de vida e os objetivos em causa não sejam um consumismo exacerbado que alimenta uma ilusão de felicidade. A encíclica Laudato Si, é uma oportunidade e um desafio que a igreja e cada um de nós não pode nem deve esquecer facilmente, porque a vida de todos nós exige discutir caminhos mais sóbrios, pequenos gestos que façam a diferença, e “uma consciência de comunhão com todas as criaturas”. É neste caminhar que devemos aprender e divulgar as boas práticas para garantir uma melhor qualidade de vida às gerações vindouras.

 

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