Está a fazer um ano, que o Papa Francisco se referiu, de forma concreta ao desafio urgente de proteger a nossa casa comum, quando escreveu a encíclica Laudato sí. Esta encíclica do Papa foi e é um sinal claro e compreensível, na forma como expõe esta nova configuração de vida à sociedade e à Igreja.
Podemos dizer que este documento vai muito além de apelos circunstanciais. O Papa relaciona ecologia com política, faz depender a proteção do ambiente do combate à pobreza, do reconhecimento dos limites, da partilha dos recursos naturais existentes e da concretização do que chamou de “ecologia humana”.
A obsessão desmesurada por um estilo de vida consumista, sobretudo quando poucos têm possibilidades de o manter, só poderá provocar problemas e ruína à sociedade em que vivemos. E como diz o papa a situação atual do mundo «gera um sentido de precariedade e insegurança, que, por sua vez, favorece formas de egoísmo coletivo».
Neste tipo de discurso, verificamos que antes de tudo é a humanidade que precisa de mudar. Falta a consciência duma origem comum, duma recíproca pertença e dum futuro partilhado por todos. Surge, assim, um grande desafio cultural, espiritual e educativo. As raízes da crise cultural agem em profundidade e não é fácil reformular hábitos e comportamentos. Por isso, a educação e a formação são os desafios centrais: «toda mudança tem necessidade de motivações e dum caminho educativo» (15); estão envolvidos todos os ambientes educacionais, primeiro « a escola, a família, os meios de comunicação, a catequese» (213).
A consciência da gravidade desta crise cultural e ecológica precisa de traduzir-se em novos hábitos. Muitos estão cientes de que não basta o progresso atual e a mera acumulação de objetos para dar sentido e alegria ao coração humano. As famílias têm uma nova sensibilidade ecológica e um espírito generoso, mas cresceram num contexto de consumo e bem-estar que torna difícil a maturação doutros hábitos. Por isso, estamos perante um desafio educativo da e na família.
Perante tamanho desafio, a família é o espaço mais propício para se ler e meditar a Laudato Si. Por isso, o convite do Papa Francisco a um debate urgente, aberto e dialogante, soa a confidência da sua preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral (13-14). Aí ecoam melhor o louvor e súplica dos que acreditam em Deus Criador e Omnipotente, e a oração dos cristãos que imploram a graça de assumir os compromissos para com a criação que o Evangelho de Jesus nos propõe (246).
Não se pode subestimar a importância de percursos de educação ambiental capazes de incidir sobre gestos e hábitos quotidianos, da redução do consumo de água, à diferenciação do lixo até «apagar as luzes desnecessárias» (211): «Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo» (230). Tudo isto será mais fácil a partir de um olhar contemplativo que vem da fé: «O crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu, a todos os seres. Além disso a conversão ecológica, fazendo crescer as peculiares capacidades que Deus deu a cada crente, leva-o a desenvolver a sua criatividade e entusiasmo» (220).
A educação ambiental na família, tem de incluir uma análise critica às novas formas de modernidade, baseados na razão instrumental (individualismo, progresso ilimitado, concorrência, consumismo, mercado sem regras), mas também recuperar os claros níveis de equilíbrio ecológico, nomeadamente o encontro consigo mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus. Não basta falar apenas da integridade dos ecossistemas, mas é preciso ter a coragem de falar da integridade da vida humana, da necessidade de incentivar e conjugar todos os grandes valores.
Paulo Caetano
