Evangelizar para Ser … Pessoa e Comunidade

O Cónego Manuel Alberto Pereira Matos, é Vigário geral da Diocese da Guarda e diretor da Escola Teológica de Leigos.
O Cónego Manuel Alberto Pereira Matos é Capelão da Misericórdia da Guarda e faz parte do Conselho Presbiteral. É Assistente Diocesano do Renovamento Carismático e Administrador Paroquial de João Antão, Panóias e Sant'Ana de Azinha. É Membro do Conselho Pastoral Diocesano e Presidente do Cabido da Sé da Guarda.

Numa breve palavra introdutória, e em jeito de saudação aos leitores de “O Alforge”, queria estimular a abertura de espírito de quantos se dispõem a gastar uns minutos do seu tempo a refletir sobre estes temas da Assembleia Diocesana.


1. Indo direto à questão principal, ousemos perguntar: sentimos alguma inquietação com o anúncio da Boa-Nova de Jesus Cristo, do Evangelho, às pessoas que nos rodeiam? É claro que, para isso, teremos de querer, nós próprios, ser profundamente tocados pela palavra de Deus e viver dela. Por isso se acentua que a Palavra deverá ter a primazia na vida diária de um discípulo de Jesus, a par da Eucaristia, as duas mesas que por igual alimentam a nossa vida espiritual. Para o maior conhecimento e familiaridade com a palavra revelada, sugere-se a sua leitura assídua, a formação de grupos bíblicos, a prática da lectio divina, ou leitura orante, a sós ou, melhor ainda, com outros.


Tal será o caminho para ganharmos maior consciência de que somos Igreja e que, por isso, nos empenhamos na missão evangelizadora a ela confiada. Na realidade, evangelizar é a missão primordial e permanente da Igreja.


2. Consequentemente, e dadas as dificuldades de transmitir o Evangelho hoje em dia, teremos de nos interrogar: - Como encontrar novos dinamismos, adequados às pessoas, desde as crianças, aos jovens e aos adultos? E como levar a vivência dos valores cristãos aos diversos ambientes: mundo da cultura e do ensino, espaços da vida política, diversos lugares da vida social e económica, espaços onde se desenvolvem atividades lúdicas e de lazer, e muitos outros?


3. Especial importância na receção da palavra de Deus é reconhecida à homilia da missa dominical, visto ser para muitos cristãos quase o único momento de contacto com a mensagem evangélica. Daí que tenhamos de pensar no modo de tornar as homilias mais eficientes. Claro que a primeira responsabilidade, a este respeito, é dos sacerdotes e dos diáconos, visto lhes estar cometido o múnus da pregação. Mas também aos leigos é pedido, na hora que passa, que tenham alguma participação na preparação das homilias, de modo a torná-las mais incisivas, com linguagem mais inteligível para os ouvintes, devidamente direcionadas para a vida concreta das respetivas comunidades.
Importa, para isso, descobrir juntos a maneira de cuidar melhor este meio habitual de evangelização, e que é, afinal, um modo acessível de formação permanente.


Algumas sugestões para o conseguir vão já aparecendo, nesta fase de preparação da Assembleia Diocesana, como a formação de pequenos grupos que antecipadamente se debrucem sobre as leituras do domingo seguinte, e as comentem numa breve reunião com o pároco, e que igualmente façam alguma apreciação crítica à homilia anterior, e também acerca do seu impacto na comunidade.


4. A família e o seu lugar na evangelização, aí está um assunto que todos deveremos reconhecer como uma prioridade na pastoral da Igreja nos nossos dias. Todos sabemos que as dificuldades, neste domínio, são muitas. Elas existem para os casais em todas as idades, com especial incidência nos casais novos. Entende-se, por consequência que há de ser prestada uma maior atenção à realidade familiar, a começar pela preparação para a constituição de uma família (com a conveniente preparação para a vida matrimonial). Há por isso que ver como levar os jovens a entenderem o Matrimónio é uma verdadeira vocação pessoal, mas de repercussão eclesial.


Depois, urge dar especial atenção aos casais novos, o que deverá ser feito mediante o acompanhamento, próximo e discreto. Haverá que procurar a sua integração na vida da comunidade cristã e nos movimentos eclesiais, como sejam equipas ou grupos de casais.


A celebração dos acontecimentos festivos de cada família, ou também com a presença da família mais alargada, é uma oportunidade para consolidar os laços familiares e a estabilidade que hoje se vê minada por muitos fatores.


De grande significado é também o início da catequese dos filhos, circunstância em que a presença dos pais é fundamental, assim como o acompanhamento que os pais fazem de todo o itinerário catequético, onde o exemplo é mais eficaz do que a palavra.


Esta evangelização – como indica o título deste Capítulo II - tem como objetivo fazer com que cada um cresça enquanto pessoa e seja integrado na comunidade, quer na comunidade cristã, quer na sociedade, tornando-se ele próprio um elemento interventivo na causa comum.


Entretanto, teremos de estar prevenidos contra as tentações dos agentes pastorais, sendo este um tema que mereceu ao Papa Francisco uma especial atenção, ao tratar das dificuldades da evangelização nos tempos atuais.


Eis as tentações mais frequentes e mais nefastas: 1) a obsessão da privacidade (a reivindicação de um direito absoluto, contra a disponibilidade oblativa); 2) o isolamento e o individualismo (contra a abertura ao exercício da corresponsabilidade); 3) o desalento (pessimismo) e o mundanismo espiritual (o prestígio e o domínio, contra o serviço humilde e discreto); 4) o espírito de contenda e o divisionismo (contra a unidade e aceitação das diferenças).
Como expressão viva e concreta da evangelização, e elemento de verificação para cada um ver se está ou não impregnado pela mensagem evangélica, vem o tema do compromisso com os pobres. Aqui, é preciso:1) fazer a identificação das várias formas de pobreza; 2) atender às fragilidades que reclamam acompanhamento e proximidade; 3) promover organismos e instituições de solidariedade, e aderir a elas.


O momento que passa exige, de todos nós, maior consciencialização pessoal e comunitária. Que o mútuo estímulo a isso nos conduza.

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