A Caminho da Assembleia Diocesana. Documento Trabalho - Capítulo III

O Pe. José António Dionísio Sousa, diretor do Secretariado Diocesano da Liturgia – Guarda. É Responsável pelas Comissões de Pastoral Litúrgica e Música Sacra.
O Pe. José Dionísio, nasceu a 22 de Fevereiro/ de 967. Foi ordenado a 02 de Fevereiro de 1992. É Pároco de Aldeia Viçosa, Faia, Cavadoude, Misarela, Pêro Soares, Porto da Carne, Vila Cortês do Mondego e Vila Soeiro. É Diretor da Escola de Música Sacra. Faz parte do Conselho Presbiteral e é Membro do Cabido da Sé da Guarda.

O objectivo da última parte [Capítulo III – Celebrar a Fé com Arte e com Alma] do Documento de Trabalho (Instrumentum Laboris) para a preparação da Assembleia dos representantes do Povo de Deus na Diocese da Guarda, deste ano de 2017, é o de qualificar a participação nas acções litúrgicas de cada diocesano, tornando-a mais consciente, plena e frutuosa.


Vinte anos após a conclusão do Concílio Ecuménico Vaticano II, em 1985, os Bispos católicos de todo o mundo, reunidos em Sínodo com o Papa S. João Paulo II, constatavam que a renovação das celebrações litúrgicas tinha sido o fruto mais visível de toda a obra conciliar. Assim sendo, podemos perguntar, por exemplo, de onde é que vem a importância da proclamação da Palavra de Deus em cada celebração da Liturgia? Porque é que, por exemplo, não basta ler a Bíblia em casa de cada um? E rezar sempre cada um para si?... Para responder a estas e a outras questões afirmamos a necessidade de cada baptizado em se deixar atrair pela celebração comunitária da fé. A Igreja torna-se nela mais unida e mais forte. A beleza de Deus contemplada nos espaços litúrgicos e nos ritos, na música e no próprio silêncio de todos, ajuda a assembleia, e cada participante na Liturgia, a escutar o Senhor que quer falar ao coração.


Quando participa na acção litúrgica, cada baptizado experimenta o carinho do Pai de misericórdia a quem louva e suplica. No dizer do papa Francisco, o crente aí se encontra com Cristo, rosto da misericórdia do Pai, fonte da alegria do Evangelho. Aquele que celebra a sua fé _que é a fé da Igreja_ segundo a sua condição própria, cresce também espiritualmente como membro do Corpo de Cristo. E, o Espírito do Pai e do Filho nela se torna a fonte donde dimana toda a força da Igreja (Vaticano II: Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium – SC 10).


Constatando que a beleza da celebração litúrgica cresce, na medida em que melhor se prepara cada encontro com o Senhor e com os irmãos, não é difícil preconizar a necessidade de formação litúrgica das nossas comunidades: os que nelas exercem ministérios e toda a assembleia, em geral. Isto faz-se com a valorização dos ministérios da presidência, da orientação das celebrações, de acólito, leitor, organista, salmista ou coralista… implicando, tantas vezes, uma agilização de horários e espaços de formação e acolhimento. Em diversas comunidades locais, os Orientadores leigos ou religiosos de Celebrações Dominicais na Ausência de Presbítero (CDAP) podem e devem ser importante factor de formação prática em vista de uma melhor participação do Povo de Deus, que se reúne no dia principal dos cristãos. Recordemos que o número 28 da Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II (SC) assumiu como uma das suas principais linhas orientadoras, decorrente do sacerdócio baptismal de todos os cristãos, a activa participação litúrgica, não só dos sacerdotes, mas de todos os fiéis, cada qual no que lhe diz respeito.


Na prática da Pastoral, a Igreja local toma contacto com muitas pessoas católicas que o são pelo Baptismo, mas não pela prática regular da fé, e que a procuram para a celebração dos sacramentos e sacramentais (p. ex. os funerais). A preparação para os sacramentos, sobretudo os da Iniciação cristã, Reconciliação, Matrimónio… pode sempre constituir ocasião privilegiada de evangelização. Por exemplo, a pastoral do sacramento do matrimónio abrange a celebração do matrimónio cristão, o aniversário de casamento e a liturgia familiar, onde se começa a despertar e a dar os primeiros passos na pastoral litúrgica. O acolhimento pastoral dos que pedem os sacramentos há-de querer proporcionar uma experiência feliz de reencontro com aqueles que mais regularmente frequentam a ‘casa paterna’. Os nossos Pastores diocesanos, para não falar só do Papa Francisco, frequentemente recordam a todos os agentes da Pastoral que os contactos esporádicos com as estruturas da Igreja local, por ocasião da celebração dos sacramentos, são oportunidades que não se devem desperdiçar com atitudes demasiado moralistas ou azedas que gerem mais distanciamento.


Aos olhos de todos, a Igreja-instituição não deixa também de ser mãe. Daí o esforço pedido aos responsáveis pela Liturgia em cada paróquia e zona na divulgação de locais para permanências e atendimento/acolhimento, que serão caminhos e portas abertas que nos conduzirão a todos nós _ filhos pródigos _ aos braços sempre abertos do Pai. Todavia, hão-de zelar todos, especialmente os pastores, para que uma certa particularização da prática da fé não se torne num cancro difícil de combater. Na celebração dos Baptismos, como dos Casamentos, que não se ceda a interesses mais pessoais, sociais e familiares, em detrimento da prática da fé comunitária.


A Igreja há-de sempre acolher e valorizar o percurso humano de cada fiel, é verdade. E cada crente há-de querer também fazer parte do ritmo fundador que é marcado desde o início do cristianismo pelo destaque colocado na celebração dominical da ressurreição de Jesus Cristo. Numa sociedade secularizada, como a nossa, há cristãos e grupos de cristãos que desvalorizam a participação na celebração litúrgica do domingo, convencidos de que o culto inaugurado por Jesus se reduz ao culto que prestamos a Deus na nossa vida pessoal, só no interior do nosso quarto, digamos. Cristo é muito mais que um modelo que devemos imitar. Na liturgia (a assembleia que reza ao seu Senhor) o crente tem a possibilidade de transformar a sua vida num autêntico culto agradável ao Pai.


Será que a nossa Igreja diocesana sente mesmo que é chegado o momento de incutir um novo ímpeto a esta celebração dominical da alegria da Páscoa? Porque, só acreditando e celebrando esta realidade do dom de Deus no meio do mundo será possível a transformação da vida de cada cristão, e poderá atrair outras pessoas para esta comunhão fraterna. Não querer ir à Missa (ou à Celebração) ao domingo, em nome do culto apenas e só ‘em espírito e verdade’ e sozinho, significa recusar fazer parte do Corpo de Cristo que é a Igreja. Isto é muito sério. E, ir a duas ou três procissões por ano não pode bastar para sossegar a consciência!...


O objectivo de reactivar as celebrações dominicais em tantos lugares, onde tem vindo a perder fôlego, deve querer atingir-se com o auxílio de uma catequese mistagógica (e prática) sobre o Mistério Eucarístico, desde a infância. Nascemos e vivemos da Eucaristia, como lembrava S. João Paulo II na sua Encíclica. Isto tem de ser ensinado com muito amor e firmeza a todos, desde pequenos, porque é uma questão de vida ou de morte. Precisamos de ir à comunhão que é a celebração eucarística porque, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos, como nos recorda também o papa Francisco n’ A Alegria do Evangelho, nº47.


Cada comunidade local e cada Diocese, só na oração se comprometerá cada vez mais no mundo, com os valores do Reino e com os critérios evangélicos. Daí o ideal de que cada comunidade católica se torne em verdadeira escola de oração (nem que seja escolinha, pelos limitados recursos humanos, em especial). Porque, caso contrário, as forças humanas e a boa-vontade cansar-se-ão num apostolado frio em que falte o calor da vida espiritual. Rezando e esperando com fé, também as vocações de consagração hão-de surgir. À maneira de Cristo e em número que aprouver ao Senhor da messe.


O cultivo da vida espiritual é algo que diz respeito a cada cristão. Aos presbíteros em primeiro lugar, certamente. Cada baptizado, desde novo, há-de perceber na sua assembleia celebrativa uma maior ligação entre a dimensão sacerdotal (Liturgia) e a dimensão profética (anúncio, catequese). Facilita-se assim a descoberta da vocação à santidade, a iniciação à oração pessoal particular ou em grupos de oração; a participação em retiros, exercícios espirituais e peregrinações…


Fica o voto de que a Assembleia de 2017 na Diocese da Guarda dê um contributo decisivo para que em festas e romarias, ditas religiosas, cada vez mais possa haver distinção entre a celebração da fé e da piedade popular, e os momentos de pura diversão e recreio que nada têm a ver com o culto a Deus e aos seus santos.


Na nossa diocese da Guarda, inserida na interioridade do território nacional, o meio urbano vai tomando a primazia. Não esquecemos que a origem e expansão do cristianismo foi nas cidades e a partir das localidades maiores… não será esta, também, uma mudança de fundo a considerar? E fazer coincidir as celebrações litúrgicas do Dia do Senhor – desde as horas vespertinas até às da tarde de domingo – com a formação dos mais e menos jovens (catequese), valorizando a família e o convívio? Combatendo assim também a crescente tentação de privatizar a prática da fé, mas sem descurar a assistência aos mais idosos e isolados.


Há cada vez mais comunidades entre nós que, devido à escassez de sacerdotes, celebram o domingo professando a fé, escutando a Palavra e comungando o Pão da Vida, orientadas por um animador. Se, por um lado, não é o ideal da celebração da santa Missa, por outro temos de reconhecer alegremente que é também uma manifestação da vitalidade da Igreja que oferece aos seus filhos a comemoração semanal da Páscoa. Também os Ministros Extraordinários da Comunhão possibilitam aos idosos e aos doentes, que não podem deslocar-se à assembleia reunida na sua localidade, a celebração cristã do domingo nas suas casas ou nos lares de idosos, por exemplo.


Rezemos todos para que esta Assembleia dos representantes do Povo de Deus na Diocese da Guarda possa ser alavanca para mais Fé, Esperança e Caridade nas nossas aldeias, vilas e cidades.

 

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